Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, outubro 12, 2005

DORA KRAMER Sob estreita vigilância

O ESTADO DE S PAULO

dkramer@estadao.com.br


Quando bem fiscalizados os políticos andam nos trilhos, embora nem sempre em linha reta A decisão da Mesa da Câmara de mandar ontem mesmo os processos dos 13 deputados indicados pela CPI dos Correios como infratores do decoro parlamentar contrariou expectativas e, mais uma vez no didático processo em curso, mostrou que as excelências quando bem vigiadas trabalham direito.

Não deixa de ser um golpe na algo esnobe e um tanto intolerante tese segundo a qual tudo está fadado a dar errado na política brasileira; que só os sabidos se apercebem dessa realidade enquanto os iludidos se deixam levar pela (falsa) impressão de que - como dizia o PT em antigo lema - um outro Brasil é possível quando a sociedade faz a sua parte e não se limita a reclamar dos políticos.

Nada a ver com a exorbitância ufanista do presidente da República, para quem o funcionamento de "três CPIs ao mesmo tempo" põe o País na condição de exemplo mundial - sabe-se lá do quê.

Luiz Inácio da Silva pega carona na obstinação diletante da opinião pública, cuja fiscalização estreita de cada fase dessa crise impediu que em diversos momentos houvesse o que em outras épocas foi perfeitamente possível: o acordo tácito - com o beneplácito da imprensa - de que investigação tem limite e o esquecimento dos fatos é indispensável à solidez da governabilidade.

Em 2004 esse pacto não-escrito possibilitou o arquivamento temporário do caso Waldomiro Diniz, da manobra do presidente do Senado para arquivar a CPI dos Bingos e do truque ilusionista para responsabilizar o Ministério Público pelo concurso de uma conspiração para derrubar o presidente Lula por intermédio da desmoralização de seu chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Agora tentativas semelhantes vêm sendo desmontadas sistematicamente a golpes de vigilância estreita.

Foram várias. Sem contar os esforços para evitar a instalação das comissões de inquérito, a primeira delas ocorreu em meados de julho, quando uma marotíssima conversa a respeito de um acordo alegadamente para assegurar o "funcionamento do País" chegou a prosperar até entre alguns setores da oposição. Mais especificamente do PSDB, preocupado com o envolvimento do senador Eduardo Azeredo, presidente do partido e usuário do sistema Marcos Valério de financiamento eleitoral.

A reação social - a imprensa reflete isso e não o contrário, como os que imaginam os veículos de comunicação como entidades de autoconcedido direito divino - foi imediata e negativa.

O movimento de resistência repetiu-se quando veio a fase de desqualificação das CPIs, sob alegação de perda de foco, inconsistência nos resultados das investigações e inutilidade exibicionista por parte dos investigadores.

Ali, de novo foi possível observar opiniões de parlamentares até respeitáveis em concordância com a versão que animou muita gente, entre as quais os presidentes da República e do PT e o deputado José Dirceu, a começar a dar por virada a página.

Foi notável a reação, não pelos registros de analistas políticos e editoriais de jornais e atitude crítica de integrantes do que os injuriados já classificaram como "elite conspiratória" composta por meia dúzia de implicantes.

O repúdio ao que o senso comum convencionou chamar de "pizza" esteve presente em programas de entretenimento, em geral refratários a discussões políticas pelo baixo grau de interesse popular no assunto.

Quando a gente sintoniza a TV de tarde, ou mesmo à noite, em canais abertos e assiste a bonitos, rebolativas e apelativos discutindo os rumos da CPI, fulos da vida com a possibilidade de "terminar tudo em pizza", percebe-se como são reduzidas as chances de pôr ao forno a massa (de manobra).

Vimos agora no vai não vai da Corregedoria, da Mesa Diretora e do Conselho de Ética da Câmara. Um jogo de declarações contraditórias, expressão de vontades opostas, atitudes sob as quais era possível vislumbrar tentações corporativistas.

Confiantes nelas, os 16 que sobraram na Casa dos apontados pelo relatório da CPI chegaram a sonhar com o perdão dos camaradas, pois a história está cheia de episódios em que a impunidade foi assegurada mediante subterfúgios retóricos e regimentais.

A decisão de enviar o nome dos 13 restantes ao Conselho de Ética sem juízo prévio, evidentemente não pode ser interpretada como o final feliz (para os costumes) da história. Afinal, ela está só começando.

Mas poderia ter acabado antes disso e poderá ser interrompida a qualquer momento se não houver vigilância contínua. Dá mais trabalho, obriga o compartilhamento de responsabilidades, mas faz um bem enorme à evolução das espécies na política.

Um exemplo

Na avaliação do Conselho de Ética, a acareação, em sessão fechada, entre os deputados Sandro Mabel e Raquel Teixeira não dirimiu dúvidas.

Mais adequado à natureza do Conselho teria sido deixar a sentença ao juízo do público que paga as despesas da TV Câmara para ter acesso aos trabalhos da Casa.

Arquivo do blog