O GLOBO
O Planalto aguarda pesquisas mostrando que o pior já passou. Lula se sente fortalecido para encarar as CPIs e o debate com a oposição. O Bolsa-Família cresce, aparece e mostra que será boa moeda eleitoral. Dos sinais positivos da economia, então, nem se fala. Mas esse governo é assim: parece que basta as coisas começarem a melhorar que alguém dá um jeito de piorar.
É aquela velha fórmula petista de transformar limonada em limão. Desta vez, o alquimista foi o presidente. Se o PT parece não ter aprendido a mais dura lição de sua existência — embora isso só vá ficar totalmente claro com o resultado da eleição de ontem — Lula, pelo jeito, está se deixando entusiasmar cedo demais pela expectativa de recuperação. Como explicar de outra forma a solidariedade explícita do presidente aos petistas ameaçados de degola e as articulações para que o PT dê legenda a eles em 2006?
Aparentemente, a fórmula é boa para o Planalto. Lula adoça a boca dos cassáveis do PT, eles renunciam — dos sete citados, apenas José Dirceu não pode mais fazer isso — a crise se abrevia e a vida continua. O Planalto não tem que enfrentar o desgaste de meses de processo contra os companheiros.
Aos olhos da opinião pública, porém, as coisas nem sempre funcionam assim. Tivesse sido o presidente Lula mais bem aconselhado, ou, talvez, se ouvisse os conselhos, dificilmente o país teria assistido à cena de sexta no Planalto.
Louve-se o presidente pela qualidade de ser amigo dos amigos e não deixar companheiros no caminho. Ao afirmar publicamente, porém, que os petistas ameaçados de degola não são corruptos, terá ido longe demais. Se não há provas concretas contra alguns, outros dos que foram recebidos no gabinete presidencial estão nítida e inegavelmente encrencados.
O país acompanhou passo a passo as investigações, sobretudo o capítulo dos saques no Banco Rural, e terá ficado com a impressão de que por ali passou gente que merece, sim, punição. Não há como dizer hoje, até por incompetência da CPI que deveria estar investigando isso, quem usou dinheiro de Marcos Valério para saldar compromissos de campanha e quem o terá utilizado para outros fins.
Além disso, reduzir tudo o que ocorreu a mais um escândalo de caixa dois — algo que atinge todos os partidos — pode ser uma forma de tentar tapar o sol com a peneira. É bom lembrar que caixa dois também é crime — e que não cabe ao presidente da República, nem na mais leve insinuação, chancelar esse tipo de procedimento como pecado menor.
Assim também com o PT. Se o preço a pagar pela renúncia é dar legenda para os petistas envolvidos em 2006 e passar à opinião pública a idéia de que estão colados a Lula, talvez seja melhor pensar duas vezes. Para sonhar com reeleição, o presidente precisa do partido forte — até porque suas possibilidades de coalizão não são das melhores. E o PT só vai recuperar a credibilidade junto a certos setores do eleitorado se fizer o dever de casa: punir e expulsar os responsáveis.
A esta altura do campeonato, ainda que as coisas estejam muito melhores para o governo do que há cem dias, Lula e os mais próximos precisam entender uma coisa: para chegar a 2006, não adianta ficar bem com os amigos do PT; o acerto de contas agora é com a sociedade.
CPI tenta dobrar promotor dos EUA
As caixas com a papelada resultante da quebra de sigilo das contas bancárias de Duda Mendonça nos Estados Unidos já estão no Brasil, mas não ainda com a CPI dos Correios, que fez o pedido. As autoridades brasileiras ainda não conseguiram convencer o promotor distrital de Nova York, Adam Kauffman, de que, por aqui, comissões parlamentares de inquérito têm poderes para requerer documentos sigilosos.
O argumento de Kauffman é que o acordo Brasil-EUA de cooperação nessa área não inclui explicitamente as CPIs. E que os precedentes, nos casos em que foram abertas exceções, não são dos melhores: a CPI do Futebol, por exemplo, recebeu e vazou quebras de sigilo nos Estados Unidos.
O problema deve ser resolvido nas próximas horas. O Ministério da Justiça, que solicitou os documentos a pedido da CPI, está trabalhando para quebrar a resistência do promotor e colocou em contato telefônico com ele o sub-relator de movimentações financeiras, Gustavo Fruet. O presidente da CPI, Delcídio Amaral, vai procurar a embaixada dos Estados Unidos e não descarta a possibilidade de ir a Nova York para uma conversa olhos nos olhos.
Entrevista:O Estado inteligente
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