Diversas pesquisas de opinião já revelaram que uma parcela infelizmente não desprezível da população reluta em condenar políticos que empregam os seus parentes ou os beneficiam de outras formas também tidas como legítimas. Isso, quando não se aprova sem rebuços a conduta que peca contra o primeiro mandamento da ética política nas sociedades democráticas - o que determina a absoluta separação entre o público e o privado.
Essa avaliação complacente, para dizer o mínimo, contém duas dimensões. De um lado, representa uma expressão pervertida de uma das características mais louváveis do modo de ser dos brasileiros - a consideração da família como a primeira das instituições sociais, merecedora, acima de qualquer outra coisa, da lealdade individual. De outro lado, traduz uma visão da política como atividade inerentemente corrupta ou permanentemente vulnerável à corrupção.
Daí se segue que, se todos temos o dever primário de ajudar nossos familiares, e se a política é por definição uma fonte de favorecimentos pessoais, os políticos têm mais é que contemplar aqueles aos quais estão ligados por laços de sangue antes de fazer o mesmo a terceiros - porque contemplado alguém haverá de ser.
Ainda bem que nesse particular a lei está à frente dos costumes herdados da cultura patrimonialista. E compartilhados, como se vê, por figuras estelares do partido que se arrogava o monopólio da moralidade pública, prometia transformar radicalmente os costumes políticos nacionais - e, assim que chegou ao poder, plantou o seu símbolo nos jardins de uma propriedade comum: o palácio presidencial.
Agora, o ex-ministro José Dirceu de Oliveira e Silva corre o risco de ser punido por haver, segundo evidências coletadas pelo Ministério Público, confundido a Casa Civil com a casa de sua família. Os procuradores, ao cabo de um ano e sete meses de investigação, concluíram que, entre 2003 e 2004, não só a infra-estrutura da Casa Civil serviu a José Carlos Becker de Oliveira, o filho do ministro, em suas andanças planaltinas, como ainda ele foi tratado com favoritismo na liberação de verbas federais para a região paranaense onde se localiza a cidade de Cruzeiro d_Oeste, da qual, não por acaso, viria a se eleger prefeito com mais de 70% dos votos.
Ao que se apurou, Oliveira pai favoreceu Oliveira filho quando este era "um brasileiro igual a vocês", como outrora Lula se identificava. Já seria reprovável se Zeca Dirceu tivesse sido aquinhoado com o que vem do coração de um pai poderoso na condição de detentor de mandato popular. (Em 2002, ele não conseguiu se eleger deputado.) Pior foi a prática do filhotismo como instrumento eleitoral, afinal bem-sucedido no município onde o pai viveu clandestino e com nome falso no tempo da ditadura.
Agora, o Ministério Público se prepara para requerer ao procurador-geral da República que peça a abertura de processo no STF contra o ex-ministro pelos crimes de tráfico de influência e peculato. Condenado, Dirceu poderá pegar até 8 anos de prisão. A intervenção do procurador-geral e a ida ao STF derivam do foro privilegiado a que o acusado tem direito por ser parlamentar.
A ironia é preciosa. Dirceu entrou com pedido de liminar no STF para sustar o processo aberto no Conselho de Ética da Câmara em que é acusado de quebra de decoro parlamentar, cuja pena máxima é a cassação do mandato. Dirceu alega que não exercia o mandato de deputado quando dos atos de que o acusam de ter praticado na Casa Civil - e que nega. No caso dos seus desvelos de pater familias, porém, o eventual processo correrá no STF - a menos que, perdendo a outra batalha judicial, ele perca o status de deputado.
Outra ironia é a descoberta de que o principal prestador de serviços ilícitos a Zeca Dirceu era Waldomiro Diniz, o braço direito do ministro que entraria para a crônica da corrupção política pelo vídeo que o mostra praticando extorsão. Dirceu jura que nunca soube de nenhum malfeito de seu protegido. Apesar das provas, também nega qualquer violação da lei na história do filho. Vai ver, ele apenas foi fiel aos valores familiares dos quais não se sabia que era arrebatado defensor.