Pareciam dois leões enjaulados que, após baterem com a cabeça nas barras, usavam o último recurso de urrar em Brasília para serem ouvidos. No caso de Furlan, na China, poderíamos até dizer que lutou com o fervor de um Quixote abandonado.
O argumento deles é imbatível. É vital exportar ainda mais, é atrair investimentos externos hoje estagnados, é aumentar a produção, é gerar mais empregos e elevar a massa de assalariados e impulsionar a economia aumentando a participação do mercado interno neste processo de crescimento. Além disso, também é hoje a única fonte de superávits comerciais, peça-chave no financiamento do déficit em contas externas.
Aqui um alerta para o ministro Palocci: cuidado, ministro! Não mate a galinha de ovos de ouro que está conseguindo esse superávit comercial salvador que tanto elogia. Em economia há regras simples que não podem ser violadas impunemente. É só fazer as contas e ver de onde vem esse superávit e quem está sustentando a economia, que também sustenta o governo nesta crise política. É o setor privado, ministro, são as empresas agrícolas, industriais e minerais.
Os nossos problemas econômicos internos devem ser avaliados num contexto internacional, pois somos ainda um país dependente do mercado externo, que vive momentos de incerteza. Qualquer marola lá fora se transforma em ondas e inundações aqui.
É neste contexto que precisa ser avaliado o confronto entre a Fazenda e os ministérios da Agricultura e de Desenvolvimento. Palocci tem um argumento: apesar do real valorizado, as exportações continuam crescendo, ao que Furlan responde, sim, mas até quando? Estamos colhendo os bons frutos da política aplicada nos últimos dois anos, quando o câmbio era compensador, e vamos colher no futuro o que estamos plantando hoje. Mais ainda, acrescentam Furlan e Rodrigues, não é só a indústria que está sendo afetada, mas a agropecuária, os agronegócios e os investimentos externos também; as grandes empresas não virão se não puderem prever com que câmbio irão exportar. Estamos falando não deste ou daquele setor isolado, mas de todo setor produtivo. Neste cenário, ao governo cabe apenas a tarefa de adotar políticas que estimulem o empenho do setor produtivo. E isso ele não está fazendo focando sua ação apenas no controle da inflação, prioritário, sim, mas que pode ser feito sem desestimular tanto as exportações. E é a isso que Furlan e Rodrigues estão se opondo.
QUEM TEM RAZÃO?
De certa forma, os três. Furlan e Rodrigues, a curto prazo, pois o câmbio já pesa nas decisões de plantar eficientemente no campo e de investir na indústria; Palocci num prazo curtíssimo. Ele se baseia no controle da inflação,que já recuou para 5%. Mas pensar pequeno é expor-se a problemas mais graves. Às vezes, é preciso ousar.
É preciso ressaltar que a taxa cambial não é apenas um instrumento de estímulo das exportações. É também uma peça-chave para atrair e viabilizar investimento direto externo. As empresas internacionais estão reduzindo e revendo seus projetos para o Brasil porque não existe um política cambial previsível que, no momento, está dependendo da taxa de inflação. Elas viriam para exportar, mas não vêm porque não podem prever qual será a taxa na hora de exportar. Na dúvida, direcionam os investimentos para países com regras mais transparentes e confiáveis.
Isso explica em parte a estagnação dos investimentos diretos externos nos últimos dois anos. Prevê-se para este ano a entrada de apenas US$ 16,6 bilhões. A previsão oficial é de US$ 18 bilhões, mas é preciso deduzir o US$ 1,4 bilhão da operação da AmBev. É uma estagnação. Nosso potencial é de US$ 25 bilhões e esses investimentos têm longa maturação. Só que já estamos atrasados.
A equipe técnica da Fazenda deveria atentar para o que os chineses estão fazendo e nós, não. Eles desafiam o mundo mantendo o yuan desvalorizado para incentivar as exportações. Como resultado, as exportações da China elevam-se a US$ 591 bilhões, aos quais devem ser adicionados US$ 220 bilhões de Hong Kong. Teremos neste ano US$ 811 bilhões.
Sexta-feira, Zhou Xiachuan, governador do Banco do Povo da China, admitiu que o superávit comercial chinês este ano deve chegar a US$ 100 bilhões! Ele até prevê que isso poderá criar problemas, mas não altera a política do yuan desvalorizado. Por quê? Ora, são as exportações gigantescas que têm atraído investimentos externos de US$ 50 bilhões a US$ 60 bilhões por ano. E os investidores, entre eles empresas brasileiras, estão indo porque confiam que a política cambial que os atraiu não irá mudar.
A meta inabalável é continuar crescendo 9% ao ano, só possível de alcançar com os investimentos externos que o Brasil desestimula. Não há manual de economia que recomende isso para um país ávido por capitais que não possui.