Entrevista:O Estado inteligente

domingo, outubro 09, 2005

Mailson da Nóbrega Ilusões sobre o risco Argentina


Pela primeira vez em seis anos, na segunda-feira passada, os papéis argentinos estiveram por um momento com prêmio de risco abaixo dos brasileiros. Segundo Ariel Palácios (O Estado, 4/10/2005), os assessores do ministro Roberto Lavagna viveram clima de uma final de Copa do Mundo. Mesmo que o prêmio tenha terminado o dia um pouco acima do nosso, eles comemoravam a proximidade com o risco brasileiro.

Aqui no Brasil, muitos terão perguntado o porquê dessa situação depois da maior moratória da história. Alguns terão imaginado que o calote da Argentina valeu a pena. Além disso, a economia tem-se expandido a um ritmo duas vezes maior que a brasileira. Conclusão simplista: a moratória é o melhor caminho para o crescimento.

Estão iludidos os assessores do ministro Lavagna e quem imagina que a moratória não tem custos e apresenta vantagens. Os primeiros provavelmente não são os que participaram da penosa negociação da dívida. Os segundos não devem conhecer as características dos papéis argentinos nem o preço que o país pagou (e ainda paga). Dificilmente havia como pagar a dívida nos termos em que estava, mas isso não diminui os efeitos negativos do calote.

Os dois prêmios de risco refletem avaliações inteiramente distintas. Os papéis argentinos têm cláusulas especiais que garantem rendimento mais alto se o país crescer acima de 3,5% este ano e 3% nos próximos, o que é muito provável. O título renderá, pois, um adicional de juros equivalente a 5% do excedente do PIB estimado. A perspectiva de maior ganho aumenta a demanda pelos papéis e reduz o seu prêmio de risco.

Neste momento, a abundante liquidez internacional aumenta a procura por ativos dos mercados emergentes. Como a oferta de papéis argentinos é relativamente pequena frente à dos brasileiros, o correspondente efeito de baixa é maior nos prêmios dos títulos deles.

Dadas essas diferenças técnicas nos dois papéis, a comparação nos prêmios de risco deveria ser deslocada para a venda de novos títulos nos mercados internacionais. O Brasil tem sido bem sucedido, incluindo a colocação de títulos em sua própria moeda. A Argentina não conseguiu fazer nenhum lançamento nesses mercados. Tentativas de colocar papéis em dólares no mercado doméstico fracassaram porque o governo não aceita os juros demandados pelos investidores, muito acima dos pagos pelo Brasil.

Assim, a proximidade dos prêmios resulta das características dos papéis resultantes da reestruturação da dívida externa Argentina. Não há equivalência de risco entre os dois países. Sob o prisma da solvência interna e externa, a Argentina continua um risco maior do que o brasileiro, como prova a dificuldade de seu retorno aos mercados internacionais de capitais.

Quanto aos efeitos do calote, a melhor explicação é a do próprio Lavagna, que na época do acordo com os credores assinalou: "O custo que o país está pagando é muito alto e não é recomendável para ninguém. Que ninguém apresente isso como um prêmio."

Em artigo no nº 32 da revista Banco de Idéias, do Instituto Liberal, Roberto Fendt Jr. lança algumas perguntas em torno da equivocada idéia do uso da moratória "indolor" para a retomada rápida do crescimento. "Como, em sã consciência, pode-se falar de uma 'moratória indolor'? Acaso o PIB não caiu 25% durante a moratória? Acaso, ainda hoje, depois de três anos de recuperação, a renda per capita argentina não está abaixo do nível pré-moratória? O que dizer dos danos sociais decorrentes do desemprego e da queda do padrão de vida?"

Fendt diz ainda que a moratória não resolve os problemas do passado nem cria oportunidades para o futuro. "Com o fim da moratória, a Argentina continua devendo mais de US$ 125 bilhões; o serviço da dívida, que estava suspenso, passa a consumir US$ 6,8 bilhões anuais; nos próximos seis anos se concentram vencimentos de US$ 70 bilhões de dólares." Para honrar os compromissos a Argentina precisaria crescer 6% ao ano.

Em resumo, os prêmios de risco não são comparáveis e a Argentina precisa ainda efetuar um enorme esforço para livrar-se dos efeitos negativos de seu excessivo endividamento externo e da conseqüente moratória. A situação brasileira não é para comemorar, mas está muito melhor hoje e numa perspectiva de longo prazo. É isso que conta.

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