sábado, outubro 21, 2006

Em Outras Palavras, de Lya Luft

Palavras essenciais

Uma coletânea das melhores crônicas
que Lya Luft publicou nas páginas de VEJA


Liane Neves
Lya Luft: indignação com a crise moral e chamado a uma vida mais apaixonada


O título do novo livro de Lya Luft vale por uma declaração de princípios: Em Outras Palavras (Record; 224 páginas; 26,90 reais). Nos seus 54 textos – todos originalmente publicados na coluna de Lya em VEJA –, ela está sempre em busca de uma expressão inédita, um ponto de vista renovador sobre as "velhas paixões humanas". O amor, os papéis do homem e da mulher na sociedade contemporânea, o impulso criativo que tantas pessoas deixam adormecer – todos esses temas são tratados nas crônicas da escritora gaúcha. Suas "outras palavras" têm uma qualidade viva e direta. Não por acaso, sua coluna é uma das mais lidas e comentadas da revista, desde que começou a ser publicada, em abril de 2004.

Com Perdas & Ganhos, de 2003, Lya inaugurou no Brasil uma seara de ensaísmo moral. A obra vendeu impressionantes 550.000 exemplares, e Pensar É Transgredir, o título seguinte, 210.000. As relações humanas e a maturidade, assuntos fundamentais desses livros, comparecem com força na nova coletânea. Mas Lya também acena para as discussões do momento. Embora advirta na introdução que não é uma colunista política, ela não deixa de expressar sua angústia diante dos maus-tratos que a "coisa pública" sofre no Brasil. Afinal, até as palavras, matéria-prima da escritora, acabam sendo pervertidas. "Lançar uma palavra aos quatro ventos como se entendêssemos do que se trata não quer dizer que a gente viva segundo ela. A ética, por exemplo, nestes dias há de estar nos contemplando consternada, pobre senhora", diz ela no texto que dá título ao livro.

A consternação de Lya com a corrupção, a criminalidade, a crise moral e política que assola o país é expressa com muita veemência. Mas Lya é, apesar de tudo, uma otimista – ou, pelo menos, ela retorna sempre a uma atitude luminosa e positiva quando se afasta da política. Suas crônicas mais pessoais, mais "auto-referentes" (palavra dela), chamam o leitor para um questionamento tão instigante quanto animador. A crônica que fecha o livro, intitulada Podemos Ser Picasso, é um belo exemplo. Encantada com uma exposição de obras do espanhol Pablo Picasso, artista central do modernismo, Lya prega uma redescoberta da criatividade que toda pessoa guarda, talvez sem saber. E, mais do que a criatividade, Lya sugere um reencontro com a intensidade apaixonada que orientou Picasso não só em sua arte, mas também em sua vida. A leitura de Em Outras Palavras pode ser um bom começo para essa revitalização do espírito.

O DOM DO SONHO

"Todos somos capazes de exercer a arte da vida e da construção de nós mesmos. Cada um de nós tem sua parcela de dons: ensinar, contemplar, cozinhar, criar filhos para a vida, mexer em engrenagens, construir estradas, organizar uma comunidade, escrever textos, pintar, dançar, fazer música. Ou simplesmente sonhar para que outros sonhem junto, não é isso boa parte do que fazem os artistas – o sal da terra, como os loucos?"
Trecho de Podemos Ser Picasso



Livros
25 de outubro de 2006

Leia trecho do livro Em Outras Palavras, de Lya Luft

Em outras palavras

Para organizar este volume interrompi a feitura de um livro na linha de O rio do meio e Perdas & ganhos: um ensaio sobre palavras e silêncio, complementares como bons amantes, e adiei o projeto de um livro de contos, sempre seduzida pela ficção.

Brinco e trabalho, sonho e me exercito com frases e entrelinhas desde que recordo: são material de minha profissão, de meu encantamento e de minha perplexidade. Pois o que pode separar também liga, o que deveria significar harmonia pode maltratar.

Como nós humanos, palavras se transformam feito pedras roladas em fundo de rio: o vulgar torna-se belo, o comum cai na lata de lixo dos palavrões de mau gosto, o necessário é esquecido e o raro vem para a mesa como a manteiga e o pão.

Silêncios por sua vez promovem contatos amorosos ou erguem barreiras como lanças espetadas. O silêncio pode ser bom de curtir gente, arte ou natureza, ou de fazer descobertas transformadoras em nós mesmos; mas pode ser o silêncio do suicida que queria dizer: venha me socorrer... mas não havia ninguém.

Conheço o silêncio positivo dos casais que não precisam de muitas palavras, porque se entendem pelo olhar, e são felizes simplesmente estando lado a lado. Escutei o silêncio mau das famílias onde não se respeita o outro, dos casais ligados apenas pelo acomodamento; o silêncio humilhante dos locais de trabalho onde a competitividade é cruel; o silêncio perverso da mentira pública, quando culpados enveredam pela trilha da negação do mais-que- evidente e até confessado, que lesou nosso bolso e nossa dignidade.

Mulheres traídas, homens pouco amados, pais arrogantes e brutais ou eternamente críticos (também se bate com palavras), mães amargas ou obsessivamente controladoras, patrões gananciosos, funcionários insatisfeitos... todas as formas de desrespeito expresso ou subliminar tendem a reproduzir atitudes semelhantes. E os conceitos, coração das palavras, vão-se transformando nesse campo de batalha: o dito, o não-dito, o jamais comunicado.

Lançar uma palavra aos quatro ventos, como se entendêssemos do que se trata, não quer dizer que a gente viva segundo ela. A ética, por exemplo, nestes dias há de estar nos contemplando consternada, pobre senhora: não do Olimpo dos deuses inatingíveis, mas nas esquinas da nossa tresloucada humanidade, onde a abandonamos em troca de comportamentos perversos.

Temos dificuldade em lidar com o silêncio: ele ressoa mal no vazio do nosso interior. Embora seja difícil de curtir (ah, a música ao vivo, a praia com alto-falantes, a ginástica dirigida, os brinquedos comandados, a diversão atordoante em casa, no clube, no mar...), é nele que nos humanizamos - pela palavra certa, a palavra boa, a palavra respeitosa mas firme.

O medo de errar muitas vezes nos leva ao erro, e o desejo excessivo de acertar nos rouba a naturalidade: calamos quando seria melhor falar, falamos quando teria sido melhor dizer alguma coisa, qualquer coisa.

Mas nem sempre sabemos a hora, a palavra, a pessoa certa.

Assim como solidão não precisa significar isolamento, silêncio não precisa ser um corte: pode ser nossa melhor maneira de falar, naquele momento, com aquele interlocutor. Aí ele não compreende, e, mais uma vez, somos incomunicáveis.

Calar pode ser um bom exercício para nossa mente aflita de tantas informações, paralisada entre tantas escolhas, dilacerada em transformações vertiginosas como as deste tempo nosso.

Pensar sobre nós e nossa vida é um exercício: o que eu realmente desejaria ser, e o que posso fazer? Como chegar perto de mim, eu mesmo, esse que está sempre por ser descoberto?

Pode ser um bom começo ouvir a chuva no telhado, a pessoa amada vindo pelo corredor, e a consciência que fala ao nosso coração - quando ele está atento.


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