Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 15, 2006

ZUENIR VENTURA O medo da vaia

O GLOBO

Parece que o momento de maior constrangimento vivido pelo general Francisco Albuquerque, o tal que exigiu embarcar com a mulher no avião que já estava na pista se preparando para decolar, foi quando os dois entraram no aparelho e foram recebidos pelos passageiros com uma estrepitosa vaia. O comandante do Exército se irritou, tentou discursar, mas acabou impotente diante de uma arma contra a qual nada podia fazer. Se “todas as vaias são boas, inclusive as más”, como dizia Nelson Rodrigues, imagine as boas. E essa foi excelente, porque cívica.

Talvez o país esteja descobrindo que mesmo aqueles políticos que não temem o ridículo, que não estão nem aí para a má reputação, que não se importam em manchar a biografia, tremem diante da iminência de um apupo. É possível que Severino Cavalcanti tivesse começado a cair quando recebeu aquela monumental vaia no comício de comemoração do Dia do Trabalho do ano passado. Lula evitou comparecer a algumas solenidades com medo de ser vaiado. No último fim de semana, muitos parlamentares embarcaram em Brasília sem o broche de deputado e usando carteira comum de identidade, conforme registrou Jorge Bastos Moreno, que comentou: “Deve ser duro sentir vergonha da própria atividade”.

No seu discurso antes de ser absolvido pelo plenário — depois que o Conselho de Ética da Câmara recomendou sua cassação por ter recebido R$ 102 mil da Usiminas, não declarados e repassados pela empresa de Marcos Valério — o deputado Roberto Brandt conclamou os companheiros a se rebelarem contra a opinião pública que cobra punições dos acusados. Afirmou que o Congresso não poderia se curvar: “Os parlamentares têm que enfrentar a opinião pública, pois ela não é o povo; é muito menor do que ele”.

Terminou o discurso aplaudido de pé, foi absolvido e saiu para comemorar com parentes e amigos (o professor Luizinho fez o mesmo, mas de maneira mais discreta). A celebração da vitória de Brandt com direito a champanhe e foto foi o seu jeito de “enfrentar a opinião pública”, e afrontá-la. Resta saber como esta responderá.

Mais precavido, pois sabe que a reação indignada pode atingir até os inocentes, o presidente da CPI dos Correios, deputado Delcídio Amaral, advertiu seus colegas para o risco de “não poderem mais sair às ruas” em conseqüência da grande pizzaria em que se transformou o Congresso. Já que não conseguia sensibilizá-los pelo apelo moral, recorreu ao fantasma que ameaça perseguir cada um deles: o perigo de ir a um restaurante, a um cinema, ao estádio de futebol, tomar um avião, circular por um shopping ou uma calçada, levar um filho à escola. O medo da vaia.

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