FOLHA
A economia brasileira está hoje definitivamente integrada nesse grande mundo que se convencionou chamar "economia globalizada". Nunca na história da humanidade as economias estiveram tão interligadas como agora. No período anterior à Primeira Guerra Mundial a integração era grande, em alguns aspectos até maior (não havia barreiras à movimentação de mão-de-obra, por exemplo). Mas, nas questões financeiras, não há paralelo com o arranjo atual, em que os ativos financeiros respondem de forma instantânea às novas informações.
Como o número de economias é muito grande, elas são agrupadas em unidades com uma maior homogeneidade entre si. Assim os Estados Unidos, a Europa unida e o Japão formam o G3. Outro grupo é formado pelas economias asiáticas (menos Japão), tais como Coréia, Taiwan e China. Há ainda os "emergentes" (incluindo países asiáticos), que podem ser divididos em grupos menores em razão das características de suas economias. Por fim, há classificações que podem abarcar países desenvolvidos e "emergentes" em razão, por exemplo, da importância de suas exportações de commodities. Nesse último subgrupo estão países tão díspares como Austrália, África do Sul, Chile, Brasil, entre outros.
A partir daí os mercados definem os preços dos ativos de cada um em função de uma leitura sobre o estado da economia mundial e de cada grupo específico. Assim, se há uma leitura de que os preços das ações de um determinado grupo devem subir, os investidores compram uma carteira diversificada nos vários mercados dentro desse grupo. O mesmo ocorre com títulos da dívida externa de países emergentes denominados em alguma moeda forte (dólar, euro e iene) e, mais recentemente, com títulos locais desses países denominados nas respectivas moedas nacionais. Essas últimas, por sua vez, também fazem parte do universo de investimentos.
Há alguns meses os mercados identificaram como uma boa alternativa de investimentos a troca de dólares pelas moedas nacionais dos países exportadores de commodities, entre eles o Brasil. Os preços elevados desses produtos estavam (e ainda estão) gerando saldos comerciais crescentes nessas economias, criando com isso condições favoráveis para a valorização dessas moedas e atraindo capitais especulativos que reforçaram essa tendência. No Brasil, a atração adicional dos juros altos tornou o real o campeão de valorização. Ao longo desse processo, mesclaram-se fundamentos econômicos com demanda especulativa, inclusive trazendo para o jogo moedas de países com situação mais frágil, na forma de expressivos déficits em conta corrente.
No entanto, ao longo de março houve uma incipiente inversão nesse movimento especulativo, em razão da expectativa de um aumento mais rápido dos juros no chamado G3, que poderia reduzir o movimento financeiro em direção a economias mais exóticas. Em um primeiro momento o real ameaçou ser arrastado nesse movimento de redução de risco. Nos mercados de derivativos ocorreu uma redução de mais de US$ 5 bilhões de apostas no fortalecimento de nossa moeda. Mas essa pressão foi contrabalançada pela entrada de divisas a partir do saldo de nossa balança comercial e dos investimentos estrangeiros diretos: o saldo comercial continua acima de US$ 45 bilhões nos últimos 12 meses e o investimento estrangeiro ficou próximo a US$ 16 bilhões no mesmo período.
O resultado foi uma pequena desvalorização do real, próxima a 1%, acumulada nas três primeiras semanas de março. O Banco Central aproveitou de maneira eficiente essa ocasião e reduziu significativamente suas compras de dólares no mercado. O ponto fundamental é que nossa moeda passou neste primeiro teste de sua fase mais internacional. Foi um teste relativamente fácil, sem dúvida, mas que serviu para mostrar aos mais incrédulos a força de nossa balança de pagamentos. Essa é a grande mudança que ocorreu na nossa economia nos últimos anos e que permite uma atitude mais agressiva no processo de redução de juros.
Entrevista:O Estado inteligente
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