Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 23, 2006

Palocci, o motoboy e a sílfide Guadagnin Por Reinaldo Azevedo

 PRIMEIRA LEITURA

Parece-me que um homem não pode ser ministro de Estado se tiver menos direitos do que os que assistem um entregador de pizza. Se este só consegue exercer o seu trabalho podendo ir e vir, não é razoável que o outro se dedique ao seu impedido de pôr o nariz fora da porta. É o que acontece agora com Antonio Palocci. O homem não poderia ser motoboy.

Como é que vai comandar reuniões? Com que altivez vai se impor a seus subordinados — não a imposição cesarista, napoleônica, mas aquela derivada do respeito intelectual, moral e político que inspira? Que coisa, não? E, por outro lado, é compreensível que Lula tente mantê-lo a todo custo, ainda que seja um cadáver adiado: o presidente se esconde atrás de um moribundo. Se este cai, o Apedeuta é o próximo. A fila foi toda sendo consumida pelos escândalos. Não sobrou mais ninguém. Palocci, a um só tempo, é tábua de salvação e um tijolaço amarrado ao pé de Lula. Mas isso tudo ainda diz pouco.

Digamos que o ministro vá até o fim do mandato. Quem comanda os trabalhos da reeleição? Quem será o enviado especial do petismo aos mercados para negociar as bases do acordo tácito que mantém o PT no poder, impermeável às especulações? Quem, em suma, vai agora aglutinar um núcleo de pessoas e propostas para que essa exótica mistura de mercadismo e stalinismo sobreviva mais quatro anos a partir de dezembro?

Não sobrou ninguém no terreno petista propriamente. O partido, hoje, é obrigado a apelar a alguns luminares de outras legendas, um deles oriundo da ditadura militar, hoje, curiosamente, conselheiro de Lula: Delfim Netto (PMDB-SP). É dele a voz, entre os interlocutores do Planalto, mais avesso à queda de Palocci. Goste-se ou não do homem, tem experiência. Identifica o cheiro da desconstituição do poder. O deputado paulista não vê problema em que o ministro da Fazenda fique sitiado. O importante, considera, é reafirmar as regras.

Para setores que integram o establishment, pouco importa a indignação da opinião pública. Em certo sentido, entendem que o poder se consolida e se organiza contra ela, não devendo jamais ceder a qualquer forma de clamor. Se Palocci não pode mais, e não pode, ser o fiador do, digamos, "conservadorismo" petista num eventual segundo mandato de Lula, outros podem se apresentar para a tarefa. Por que não Delfim? Se não ele próprio, alguém que obedeça à sua orientação. O importante é impedir que o núcleo que está no poder permaneça impermeável àquela outra banda do PT.

O Palácio do Planalto só tem uma saída no caso da manutenção de Palocci: tentar indispor a opinião pública com o Congresso e com todas as outras vozes constituídas da sociedade que, de algum modo, sirvam à lógica do confronto. É claro que tem contado com a pressurosa ajuda dos "aduladores de mensaleiros". Cada absolvição corresponde a uma marquinha na coronha do lulo-petismo.

Há no ar um cheiro de crise das mais sérias. O petismo conseguiu empurrar os três Poderes da República para uma crise ética sem precedentes em períodos democráticos. O governo Jango, por exemplo, era uma bagunça. Mas a crise era de projeto e, de fato, derivada da conflagração ideológica que o precedeu, com Juscelino e Jânio. Depois vieram a "ordem" ditatorial e sua barafunda de valores, mas, ainda assim, alguns graus acima do simples assalto aos cofres públicos. Agora, não. Assiste-se à diluição de todo e qualquer valor.

Não lhes parece impensável que uma turma que joga no lixo o Estado de Direito anseie mais quatro anos de poder? Com que quadros pretende governar o Brasil? Quais são os seus interlocutores? Lula e o PT conduziram o país à miséria da democracia, do bom gosto, do bom senso.

Eu não vi a deputada Angela Guadagnin (PT-SP) ensaiar passos de dança para comemorar a absolvição do mensaleiro João Magno. Mas eu posso imaginar o espetáculo: com a consciência leve como a do anjo que vai em seu nome, dava seus passos de sílfide sobre as instituições ou qualquer noção de vergonha na cara. A cena, leve e vaporosa, ficará para mim como emblema destes dias.

"O horror, o horror!"

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 22 de março 2006.

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