Blog do Noblat (12/03/06 15:28)
Quem tem coragem de dizer na cara do presidente da República o que sabe que ele não gostaria de ouvir? São poucos os que têm coragem para tanto, aqui e em toda parte. E muitos deles depois pagam caro por sua ousadia.
No início da semana passada, antes que Lula embarcasse para Londres, um ex-auxiliar dele o procurou para uma conversa. E lá para as tantas insinuou, medindo as palavras, que o crescimento recente de Lula nas pesquisas não é tão consistente como pode parecer.
Lula arregalou os olhos e em seguida traiu seu aborrecimento por meio de gestos. O ex-auxiliar mudou de assunto. E assim Lula ficou sem saber o que preocupa analistas de pesquisas a serviço do próprio governo, do PT e de partidos aliados.
Eles temem que o crescimento de Lula não passe por enquanto de uma espécie de espasmo.
A crise política deflagrada com a denúncia do mensalão se arrasta há mais de oito meses e cansou o distinto público. Está no forno do Congresso uma gigantesca pizza.
Faltou o batom na cueca de Lula capaz de abalar os alicerces da República e de prender a respiração coletiva.
Por sua vez, o governo abriu seu saco de bondades e distribuiu mimos a torto e a direito. Lula ocupou e continua ocupando todos os espaços possíveis na mídia. E saiu em campanha pelo país como o único candidato até agora à sua própria sucessão.
Quando os analistas se debruçam sobre detalhes das pesquisas que escapam ao interesse dos jornalistas ou que são mantidos em segredo, concluem que ainda falta fundamento ao recente crescimento de Lula.
Embora tenha de fato recuperado parte da popularidade perdida com a crise, Lula e seu governo continuam vulneráveis em vários flancos. Um deles: o da corrupção.
Fatia expressiva dos eleitores acha que o governo é corrupto e que Lula tinha conhecimento da corrupção que grassava ali.
Perderam peso certos atributos associados a Lula e que foram decisivos para sua eleição em 2002. E ganharam peso outros que antes os eleitores valorizavam menos quando avaliavam o desempenho de Lula. Atributos como experiência administrativa e eficiência, por exemplo.
Lula cresceu nas pesquisas e tende a crescer mais enquanto faltar o contraditório. E ele só se estabelecerá quando os demais candidatos a presidente forem indicados.