Natureza da dúvida
O PSDB já passou uma mensagem ao país mesmo antes de anunciar o nome do seu candidato: a de que não consegue tomar decisões. O processo de escolha do candidato poderia ser feito através de uma consulta ampla e transparente ou poderia ser uma escolha pelos condestáveis do partido. Os tucanos escolheram uma terceira via: fazer uma consulta opaca na qual os dirigentes se deixam encurralar pelo impasse e ninguém entendeu ainda qual é a natureza da dúvida.
Tudo o que o Brasil não precisa é de mais um governo que não sabe tomar decisão. Portanto o que o PSDB deveria estar olhando é a mensagem que já está passando ainda antes da campanha começar oficialmente. O governo Lula em vários temas e conflitos ficou indeciso e paralisado. E isso gerou conseqüências pesadas para o país. O presidente Lula ficou paralisado, por exemplo, nos conflitos entre o ministro Antonio Palocci e Dilma Rousseff; entre os ministros Roberto Rodrigues e Marina Silva. Não sabe como lidar com o Movimento dos Sem Terra. A política de segurança nunca saiu do papel. As PPPs nunca viraram uma realidade. O programa de informatização das escolas parou no conflito entre Windows e Linux. O padrão da TV digital ainda não saiu.
A lista das indecisões é enorme. Para concorrer com um governo assim tão prisioneiro da dúvida seria bom apresentar ao país a idéia de um partido que sabe tomar decisão.
Os tucanos já mostraram que isso não é com eles confirmando a fama que conquistaram ao longo da sua história. Até ontem à tarde, as informações davam conta de idas e vindas, sim e não, muito pelo contrário. Se a decisão fosse por consulta, o ideal é que fosse pelo voto. Seja do Diretório Nacional, seja da militância em prévias. Se é uma decisão da cúpula, tem que ser feita com base na análise fria das chances eleitorais dos pretendentes. As explicações dadas para a indecisão são curiosas: a maioria da cúpula quer José Serra, que tem também o melhor desempenho em todas as pesquisas, mas o governador Geraldo Alckmin não tem nada a perder e resolveu ficar irredutível; por isso, ninguém sabe o que fazer. O dia para o anúncio da decisão é hoje, mas ontem á tarde o partido continuava prisioneiro da dúvida e achando que o melhor cenário seria decidir como decidir.
A China não é o que o Brasil diz que ela é
O mercado de minério de ferro está em pé de guerra. O governo chinês decidiu mudar a regra sempre usada para negociar o preço da commodity. Normalmente o preço é estabelecido em negociação entre empresas: mineradoras de um lado, siderúrgicas de outro. Desta vez, o governo chinês decidiu interferir diretamente, orientando as suas empresas como deverão se comportar na negociação e o que podem ou não aceitar.
É um exemplo prático — e que nos diz respeito diretamente — de que a China não é a economia de mercado que o governo brasileiro declarou publicamente que ela é. Na época, o Brasil cedeu à pressão chinesa achando que assim conseguiria vantagens junto ao “parceiro estratégico”, como o governo a define. Desde esta declaração, o Brasil já enfrentou uma manobra do governo chinês para derrubar o preço da soja no auge da nossa safra, e agora eles tentam derrubar o preço do minério de ferro.
O minério de ferro é um dos mais importantes produtos brasileiros de exportação. O Brasil, no ano passado, vendeu mais de US$ 7 bilhões com o produto. É o maior exportador mundial; portanto, a ação da China tem impacto na economia brasileira.
Negociação entre compradores e vendedores para a fixação de preço é rotina neste mercado, mas normalmente isso se dá entre as empresas, sem interferências dos governos. Mas agora o que houve é que o Ministério do Comércio chinês estabeleceu regras para os importadores chineses com o seguinte teor: reduzir o ritmo de emissão de licenças de importação, não aprovar qualquer pedido de importação que exceda o “limite normal”, aumentar as revisões das análises de solicitações e não aceitar qualquer solicitação de importação com preço maior do que no ano passado, principalmente, diz o texto do documento emitido pelo governo, “se vier da CVRD, Rio Tinto e BHP”. Juntas as três respondem por 70% do fornecimento mundial.
O texto do documento manda endurecer o controle da importação e diz que a ordem tem que ser cumprida; do contrário, “o importador será severamente punido de acordo com as regras disciplinadoras da indústria”. Ou seja, tudo no jeitinho chinês de economia de mercado.
Ao contrário de outras commodities, o minério de ferro não tem o preço oscilando no mercado. Negocia-se agora e isso fixa o preço para o ano inteiro. Com o aumento da demanda, o preço em 2005 teve um grande aumento, de 70%. Na época, os importadores europeus reclamaram, principalmente a Arcelor, mas acabaram aceitando. Agora a negociação recomeçou e, da mesma forma que a China tentou derrubar o preço da soja, com barreiras à importação do produto, logo após a visita do presidente Lula a Beijing, o governo chinês está criando problemas exatamente na hora de fechar o preço do minério. Sempre distante desta negociação, o governo australiano reclamou da intervenção. O governo brasileiro preferiu ficar em silêncio, apesar de ser o maior produtor mundial.
A COPPEAD recebeu o selo da European Foundation for Management Development por seu padrão internacional de qualidade. Além dela, apenas outras sete escolas não-européias receberam o título.