Fuzis no palheiro
Primeiro cenário: lá pelo meio do século passado, fui recruta no Forte de Copacabana. Dou testemunho: conheci rapazes que chegaram ao quartel sem saber escovar os dentes ou usar talheres. Ler e escrever, nem pensar. Saíram alfabetizados e cidadãos. Nossos fuzis eram belgas e obsoletos, mas o Exército significava, para muitos e à sua maneira, uma escola de cidadania.
Não sei se é assim hoje. Por muitos anos, as Forças Armadas se portaram mal, como sabido. E as condições sociais mudaram, para muito pior.
Mesmo assim, com certeza há recrutas como os de antigamente. Mas existem os de uma nova tribo: aqueles que chegam ao quartel com a intenção de aprenderem a ser melhores bandidos. Ou são forçados a isso. Podendo, cumprem ordens que vêm de fora e roubam armas e munição para abastecer as tropas do tráfico. Para esses, um pessimista diria que lições de cidadania nem adianta tentar.
Segundo cenário: há anos, o Exército foi chamado a fazer papel de polícia em favelas cariocas. Não estava preparado para isso. Uma foto no GLOBO mostrou um soldado revistando uma menina de cinco anos, procurando talvez encontrar uma arma ou alguma maconha sob seu vestido. Não houve surpresa quando se constatou que as tropas eram recebidas pelas comunidades como forças de ocupação.
Vivemos hoje um terceiro quadro. O roubo dos fuzis justificou mais uma intervenção militar. Mas tudo é diferente. A força do Estado está sendo legitimamente usada contra as legiões do banditismo — e com mais inteligência. Não está perdendo a guerra. Nem estaria ganhando, se a idéia fosse apenas recuperar as armas roubadas. Mas isso é secundário: são fuzis num palheiro, e é duvidoso que ainda estejam por aí.
O êxito ou o malogro da ocupação merecem ser medidos por outros fatores.
O principal deles: as tropas são confiáveis? Pelo visto, sim, principalmente por se tratarem de soldados profissionais: nada de recrutas. Segundo: trata-se de ação controlada de Brasília, sem compromisso com interesses políticos locais.
Em suma, o problema do domínio das favelas pelas quadrilhas está sendo enfrentado de forma nunca vista antes. Recuperar as armas roubadas será uma vitória pouco mais que simbólica. Assim como não será derrota deixar de encontrá-las.
A questão fundamental gira em torno da desmoralização — ou não — do poder, até hoje considerado absoluto, dos traficantes sobre algumas das vastas áreas faveladas do Rio. A autoridade estadual não tem condições de cumprir essa missão. O poder municipal, muito menos: já ficou provado que o programa Favela-Bairro pode dar certo apenas em pequenas comunidades. E não há outra iniciativa local, sequer nas pranchetas.
Só falta saber se a reação ao roubo dos fuzis será limitada a uma repressão com data marcada — do tipo “se fizerem de novo a gente volta” — ou se representa, finalmente, a constatação de que o crime organizado no Rio é a parte mais visível de gravíssimo problema nacional, que exige repressão permanente, de iniciativa federal. Até agora, dá para se ter alguma fé na segunda hipótese.