FOLHA DE S PAULO
Comparando os elogios com que economistas e líderes políticos americanos e europeus brindaram Menem e sua política econômica e hoje brindam Lula e seus economistas com a ausência de elogios correspondentes para as autoridades dos países asiáticos dinâmicos, formulei uma medida de qualidade tão simples quanto paradoxal, da qualidade das políticas econômicas de um país em desenvolvimento: quanto mais elogios a política econômica de um país de desenvolvimento médio receber do Norte, pior será ela para o próprio país.
A lógica por trás dessa regra é simples. A partir de suas agências em Washington, os países ricos formularam uma série de diagnósticos e de políticas-padrão destinadas a aconselhar os países de desenvolvimento médio, como o Brasil. A "ortodoxia convencional" resultante não promove o desenvolvimento desses países, mas neutraliza sua capacidade competitiva, em princípio alta, devido a sua mão-de-obra barata e a sua capacidade de importar tecnologia.
Dado o pressuposto da ortodoxia convencional de que o desenvolvimento é uma competição entre os países médios para conseguir poupança externa, a recomendação central é que lutem por ela e, portanto, endividem-se. Ganharão a competição os países que mais estritamente seguirem as recomendações e, assim, mais financiamentos e investimentos diretos receberem. Considerando, porém, que poupança externa é sinônimo de déficit em conta corrente, a experiência internacional mostra exatamente o oposto: crescem os países que não seguem tal conselho e têm equilíbrio ou superávits em conta corrente. Mas isso não importa para a ortodoxia convencional, cuja lógica se fecha com o fato de que, uma vez aceito o conselho, os países ficarão dependentes dos credores para rolar suas dívidas e obrigados à prática do "confidence building" -ou seja, a serem ainda mais fiéis às recomendações e às pressões vindas do Norte.
Já não me impressionam mais os insistentes elogios à política econômica do governo Lula: eles apenas confirmam minha paradoxal medida. Quando, porém, um grande intelectual, como é Anthony Giddens, decide fazer coro, não posso deixar em branco. Comungo com ele uma perspectiva moderadamente de esquerda, que celebrizou com o nome de Terceira Via, e moderadamente nacionalista, na medida em que ele, como cidadão britânico, e eu, como cidadão brasileiro, não obstante comprometidos com a solidariedade internacional, vejamos nossos países e o mundo a partir da perspectiva e dos interesses respectivamente do Brasil e do Reino Unido.
Giddens elogia o governo Lula em longa entrevista a esta Folha (5 de março), na qual, entre outras coisas, afirma: "Em qualquer governo de centro-esquerda, haverá os que dirão que ele não é suficientemente de esquerda, que deveria gastar mais com o social. Penso que a maioria das estratégias de Lula é correta. Ele teve de ser cauteloso do ponto de vista fiscal, por causa da enorme dívida brasileira. Você tem que saná-la, do contrário gastará ainda mais com pagamento de juros".
Meu caro Giddens, em primeiro lugar, o governo Lula não é um governo de esquerda. Transfere dos pobres para os ricos (mais especificamente para os rentistas) cerca de 6% do PIB por meio do pagamento de juros escorchantes decididos pelo Banco Central (estou supondo que 2% seriam necessários, dada a dívida pública). Em segundo lugar, Lula não controlou o gasto público e só tem aumentado o superávit primário graças ao aumento da carga tributária. Terceiro, Lula não segurou o gasto social: restringiu o gasto em educação e saúde, mas aumentou o gasto assistencialista.
Além de não ser de esquerda, o governo Lula contém um viés antinacional. O Brasil não está incorrendo em déficit em conta corrente dadas as depreciações cambiais de 1999/2002 e a forte melhoria das relações de troca do país. Mas o governo, paralisado pela taxa de juros que pratica, está deixando que a taxa de câmbio se valorize de forma irresponsável. Em dois ou três anos, esse populismo cambial levará o país a novos problemas de balanço de pagamentos.
Nas duas vezes em que estive em Oxford, fiquei impressionado com o nacionalismo inglês: um nacionalismo civilizado, social-liberal, adotado por uma nação que sabe o que é e o que não é conveniente para si própria. No Brasil, isso não existe: nossas elites são dependentes; falta hoje à nossa nação a necessária solidariedade e determinação; e o governo Lula, com a sua aceitação generalizada da ortodoxia convencional, é mais uma triste expressão desses fatos. A fim de alcançar taxas razoáveis de desenvolvimento econômico, o Brasil precisa de um controle muito mais forte de sua despesa pública e de uma estratégia para escapar da armadilha de alta taxa de juros e baixa taxa de câmbio.
Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
Arquivo do blog
-
▼
2006
(6085)
-
▼
março
(569)
- Dá Lulla
- A saída única do beco VILLAS BÔAS CORRÊA
- A ordem saiu do Planalto
- O CORDEL DO MINISTRO
- CLÓVIS ROSSI De vis, boçais e cínicos
- ELIANE CANTANHÊDE Revolução
- NELSON MOTTA '"Dancin" Days'
- LUÍS NASSIF A qualidade total e a política econômica
- A economia sem Palocci LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
- JANIO DE FREITAS O salto
- CELSO MING
- È arrivato il baritono?
- Iniqüidade penal
- Uma conta de chegar
- DORA KRAMER Oposição fecha cerco ao PT
- Só queria a Presidência, mas já gosta da idéia de ...
- "FHC acha que pode dar jeito no Brasil; eu tenho c...
- Odisséia no espaço João Mellão Neto
- Comentário da cientista política Lucia Hippolito n...
- Corrupção estatal
- Luiz Garcia Um buquê e tanto
- MERVAL PEREIRA Trapalhadas tucanas
- MIRIAM LEITÃO BC ajuda Lula
- AUGUSTO NUNES Toga vira escudo de amigo suspeito
- CORA RONAI Um país em queda livre
- CARLOS ALBERTO SARDENBERG Não mudará, já mudou
- Lucia Hippolito na CBN:CPI valeu
- CELSO MING Fazenda e Banco Central
- DORA KRAMER Garotinho, um vice em gestação
- MERVAL PEREIRA Técnico x político
- MIRIAM LEITÃO No hay futuro
- CLÓVIS ROSSI Além de pirata, com vírus
- ELIANE CANTANHÊDE Cobertor curto e imagem puída
- SERGIO COSTA Nos olhos dos outros
- DEMÉTRIO MAGNOLI Uma nação de corruptos?
- LUÍS NASSIF Bastos e a CPI do Fim do Mundo
- ‘O MENSALÃO FOI UMA REALIDADE’
- O mantra de Mantega
- Dada a partida
- Boa surpresa
- Lucia Hippolito na CBN:CPI valeu
- Lulinha está lá, sim
- IMPORTANTE !!!
- Lucia Hippolito na CBN:Lula fica só
- MIRIAM LEITÃO O dia seguinte
- MERVAL PEREIRA Crise potencial
- A MISSÃO DE MANTEGA
- CLÓVIS ROSSI Ópera-bufa na republiqueta
- FERNANDO RODRIGUES A história oficial
- PLÍNIO FRAGA A esperteza embute a mentira
- JANIO DE FREITAS Algumas sobras
- LUÍS NASSIF A economia sem Palocci
- De Antonio a Guido PAULO RABELLO DE CASTRO
- Truculência e desrespeito às leis
- DORA KRAMER Muito riso e pouco siso
- Usurpação entre Poderes
- Desafio para o novo ministro
- Uma crise de governo
- Celso Ming - O rei solitário
- A Posse de Mantega - Clima bom, hein?
- IMPEACHMENT DE LULA JÁ!
- Pergunta que não quer calar
- A queda de Palocci
- PALOCCI SAI, A CRISE FICA EDITORIAL DA FOLHA
- PROTESTOS NA FRANÇA EDITORIAL DA FOLHA
- CLÓVIS ROSSI A nudez de Lula
- ELIANE CANTANHÊDE Fim de festa
- SERGIO COSTA Do circo ao cerco social
- É uma vergonha! BORIS CASOY
- Temor de crime de Estado motivou queda
- JANIO DE FREITAS No país indignado
- LUÍS NASSIFLUÍS NASSIF Um mestre do mimetismo
- AUGUSTO NUNES Lula tem culpa nesse cartório
- Febeapá rural:: Xico Graziano
- Desafio a Lula
- Apurar toda a verdade
- Míriam Leitão - Nova direção
- Merval Pereira - O aparelhamento
- Luiz Garcia - Fator Joaquim Levy
- Dora Kramer - Caso de Polícia
- Celso Ming - Tampão ou não tampão
- Fernando Henrique Cardoso: "Não vamos repetir os e...
- Lucia Hippolito na CBN:O fim do popstar
- Tão podre, tão cedo
- Reforma da gestão
- Serra: sair ou sair
- O que quer a esquerda
- Da dança ao lixão
- FHC diz que violação de conta o deixou 'perplexo'
- FH se diz cansado do governo Lula
- Pesquisas, marketing e jornalismo
- Já não podemos dizer nada! Sandra Cavalcanti
- Lucia Hippolito :Para coração forte
- Mastigar cana e assoviar CELSO MING
- À merda qualquer escrúpulo
- Vale a pena ler de novo
- Robert Samuelson Não precisamos de trabalhador con...
- Mailson da Nóbrega A ignorância de Stédile
- João Ubaldo Ribeiro Tem governo aí, não?
- daniel piza
- Gaudêncio Torquato A Novíssima República dos coronéis
- Paulo Renato Souza Governo ditatorial
- DORA KRAMER Segurança e democracia
- EDITORIAL DA FOLHA EFEITOS DA VERTICALIZAÇÃO
- CLÓVIS ROSSI Quando calar é pecado
- ELIANE CANTANHÊDE Além de tudo, burrice
- SERGIO COSTA Dança sem par
- JANIO DE FREITAS Estado de calamidade
- FERREIRA GULLAR Último ato
- República de “pelegos” FRANCISCO C. WEFFORT
- EDITORIAL DE O GLOBO Tradição negativa
- MIRIAM LEITÃO Entre riscos
- MERVAL PEREIRA O arco da oposição
- AUGUSTO NUNES Lula comanda o ataque ao caseiro
- Fronteiras com a República de Saló Fernando Gabeira
- Na casa de Francenildo
- A dançarina entende de impunidade
- veja Entrevista: Bob Iger
- Roberto Pompeu de Toledo O futuro – uma visão virt...
- MILLÔR
- Diogo Mainardi Marcelo Netto, Marcelo Netto
- André Petry O Estado policial
- Uma sucessão de escândalos banaliza a corrupção
- Como a crise moral na política afeta nosso dia-a-dia
- Auditoria comprova favorecimento à GDK
- PFL e Alckmin negociam o vice na chapa tucana
- Até o logotipo do dossiê era falso
- O que restará da floresta em 2050
-
▼
março
(569)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA