Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 22, 2006

EDITORIAL DA FOLHA O MINISTRO E O CASEIRO

A polêmica entre um ministro e um caseiro galvaniza o debate político nacional. Quanto ao primeiro, os rigores da lei impedem que uma comissão legislativa esclareça se falou a verdade. Do segundo, a brutalidade afinada com o poder de turno seqüestra o sigilo bancário. A privacidade do ministro é preservada ao custo de sonegar-se à nação o esclarecimento de suas relações com lobistas e escroques. A intimidade do caseiro e seu drama familiar são desnudados ao país.
Não é difícil imaginar como foi gestada a idéia de devassar as contas de Francenildo Santos Costa, o empregado de uma mansão de Brasília que, em consonância com outras duas testemunhas, contradiz Antonio Palocci ao afirmar que o ministro visitou a chamada "casa do lobby". Desqualificar quem perturba é tática recorrente da cartilha autoritária que o PT, no poder, vem cultivando com desembaraço.
Tampouco estranha a falta de, por assim dizer, planejamento da ação: sigilos, no mundo da finança digital, não são quebrados sem deixar vestígios. Marcos Valério, as malas de dinheiro e as procissões à luz do dia à agência do Banco Rural -para não citar os US$ 100 mil atados ao baixo ventre nem o jipe próprio para lama generosamente aceito como presente- estão aí para provar que o desleixo operacional não nasceu hoje nas fileiras do petismo governista.
De todo modo, para um desfecho republicano, o enredo da história do ministro e do caseiro deve trilhar um único caminho. A Caixa Econômica Federal, banco estatal subordinado à Fazenda, tem a obrigação de apresentar logo o autor da violência contra Francenildo. Não fazê-lo é o mesmo que pôr em marcha uma grande operação de acobertamento a envolver o núcleo do governo, sem excluir a Presidência da República.
No que concerne a Palocci, resta-lhe esclarecer: o que tem a declarar diante das três testemunhas? Freqüentou ou não a casa do Lago Sul? Manter-se em silêncio será o mesmo que admitir falta grave, o que o impediria de seguir ministro.

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