Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 22, 2006

CLÓVIS ROSSI Primitivismo e desesperança

FOLHA
SÃO PAULO - Não é difícil reconhecer quando um país deixou a esfera da civilização e caiu na barbárie ou, mais exatamente, na mais perfeita esculhambação.
Acontece quando você encontra frases como estas: "Eles foram ultraprofissionais, simpáticos e até demonstraram preocupação comigo, perguntando se eu havia tomado o meu remédio. Olha, agradeço por ter sido vítima dessa quadrilha e não de uma outra qualquer. Esses que nos roubaram são profissionais da indústria da insegurança, praticam o crime com conhecimento".
Frases com que o engenheiro César Thomé, 70, descreveu a ação da quadrilha que invadiu, na manhã de domingo, o condomínio Sunset Garden's, onde ele mora, no bairro de Moema, de classe média alta.
Em um país minimamente civilizado, muita gente diria que o senhor Thomé enlouqueceu. No Brasil, duvido que alguém tenha coragem de discordar de sua avaliação sobre os "profissionais da insegurança" que o atacaram.
Afinal, faz muito tempo que não ser roubado deixou de ser prioridade para o brasileiro. Prioridade é não ser morto ou ferido durante a ação desses "profissionais".
Ou, posto de outra forma, o brasileiro renunciou a uma fatia de seus direitos. Contenta-se em preservar a vida. É primitivo, mas é bem Brasil, um país primitivo.
O pior é que o contentamento de Thomé por ter sido atacado por essa quadrilha, e "não por uma outra qualquer", tende a acabar. O documentário "Falcões - Meninos do Tráfico", exibido domingo pelo "Fantástico", da Rede Globo, mostra que uma fatia das crianças brasileiras desistiu de qualquer esperança em uma vida minimamente civilizada, apesar de convencidas de que o caminho escolhido só leva ao cemitério, à cadeia ou a uma cadeira de rodas.
Se elas próprias aceitam que suas vidas não valem nada, você acha que vão se preocupar com o remédio que suas vítimas eventualmente deixarão de tomar?

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