Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 14, 2006

CLÓVIS ROSSI O neon e os milênios

FSP

LONDRES - Trombei domingo, sem querer, com a parada comemorativa do dia de são Patrício, o santo patrono da Irlanda. A festa, na verdade, é dia 17, mas, como cai na sexta-feira, foi comemorada anteontem.
Vê-la é voltar a tempos imemoriais, mas que, lamentavelmente, parecem em lento processo de extinção. É a reunião de uma grande família espalhada pelo mundo, mas com raízes comuns, perdidas nas brumas do tempo. Reuniões de família estão saindo de moda. Tradições não. Mas parecem ter pouco valor de mercado.
O endereço eletrônico "Irlanda hoje" informa que muita coisa que a maioria das pessoas acha que faz parte de suas próprias tradições/cultura na verdade nasceu na Irlanda. Exemplo: o rosário começou a ser rezado na católica Irlanda.
Eu, que sou o mais completo ignorante em música (no resto também, mas engano melhor), achava que a música "country" (aquela do "oh, Suzana, não chores por mim") era genuinamente norte-americana.
Mas os caminhões que desfilaram domingo pelo centro de Londres apresentavam seguidas bandinhas, tocando exatamente o mesmo ritmo enquanto meninas de pele rosadinha, ainda mais rosadinhas pelo impiedoso frio, dançavam o que Hollywood popularizou.
Acaba sendo uma aula ao vivo e a céu aberto sobre capitalismo e globalização. Não importa tanto quem criou o que e, sim, que tem mais poder de difusão. E não há país com mais poder de difusão que os EUA -de músicas, de idéias, de modelos, de modas etc.
É sintomático que, ao fundo do desfile, na calçada da Piccadilly, surgisse uma loja Starbucks, a rede de cafeterias criada em Seattle e que se tornou sinônimo de café/cafeteria.
Não sei se os irlandeses ancestrais tomavam café. Ou o que tomavam. Mas milênios da gloriosa história irlandesa não conseguem competir com as novas tribos, cuja tradição é cantada em luminosos de neon.

@ - crossi@uol.com.br

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