| O Estado de S. Paulo |
| 14/3/2006 |
| Notícia boa que dá ibope é só vitória do Corinthians, cada vez mais rara. No mais, o que dá mesmo forte audiência é notícia ruim. São escândalos, catástrofes e crimes hediondos. Talvez a força dessas leis não escritas da comunicação explique por que quase ninguém vem pondo reparo na trajetória da inflação, uma boa notícia. Os repercutistas de sempre malham o que podem se os juros caem menos do que o desejado, mas não prestam atenção na escorregada da inflação que, mais à frente, vai deixar o Banco Central sem as desculpas habituais para não cortar mais os juros. Em fevereiro, o índice medidor de preços que conta para efeito de definição dos juros, o IPCA, avançou só 0,41%. Com isso, a inflação passada em 12 meses está em 5,51%, o que define trajetória de queda. Você pode conferir isso no gráfico ao lado. Março aponta para uma inflação mais baixa do que a de fevereiro porque os vilões, especialmente as mensalidades escolares e o álcool, já não ameaçam como vinham ameaçando. Outro medidor de preços, o IGP-M, na primeira prévia do mês, mostrou inflação negativa de 0,09%. Por trás dessa perda de força há dois fatores: o achatamento das cotações do dólar, que irriga o mercado com mais importações que, por sua vez, pressionam para baixo os preços internos; e os reajustes, bem mais baixos, dos preços administrados, os que são definidos não em conseqüência da política de juros, mas por lei ou contrato. Há certo acordo entre os analistas em que a inflação está apontando para o centro da meta que, neste ano, deverá ser 4,5%. Ao longo dos últimos seis meses, o Banco Central foi criticado pela obsessão em buscar o centro da meta e, assim, impor sacrifícios demais à sociedade, e não se contentar com permanecer dentro da zona de escape admitida e assim, proporcionar, um afrouxamento das botas dos juros que não esfolasse tanto os pés. Mas, do ponto de vista do Tesouro, há pelo menos uma boa razão para admitir que a convergência para o centro da meta traz vantagens. Se é mesmo para substituir títulos de dívida pública amarrados aos juros básicos (Selic) por títulos de longo prazo com juros prefixados, quanto mais o Banco Central obtiver sucesso em enquadrar a inflação na meta tanto melhora a previsibilidade do rendimento futuro desses títulos e, portanto, as condições de sua colocação no mercado. Em outras palavras, quanto maior for o grau de certeza sobre o comportamento da inflação futura tanto maior será a garantia de retorno dessa aplicação e tanto menores podem ser esses juros. Se o Banco Central se conformasse com atingir o topo da inflação permitida (2 pontos porcentuais acima), em três anos estariam perdidos 6 pontos porcentuais de retorno do investimento e o próprio mercado exigiria mais juros ou rejeitaria os títulos prefixados. Outra conseqüência importante da convergência da inflação para a meta é a de que os juros podem cair mais sustentavelmente. Hoje, eles estão a 16,5% ao ano. Se esse ritmo conservador de corte (de 0,75 ponto porcentual por reunião do Copom) se mantiver nas próximas três reuniões, já em julho teremos juros a 14,25% ao ano. O nível mais baixo desde 1998 foram juros de 15,25% ao ano. A vantagem adicional de uma situação assim é a de que os juros reais (descontada a inflação) resvalariam para abaixo dos 10% ao ano. Estão em 12,5%, mas já estiveram a 14%. Sempre se poderá dizer que isso ainda é pouco e que o Banco Central continua atrasado e lento demais quando se trata de usar o tesourão nos juros. Pode ser, mas o efeito previsto sobre a economia às vésperas das eleições será poderoso e tenderá a dissipar as críticas de sempre. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, março 14, 2006
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