Foto de Rafael Moraes

Tal premissa se aplica aos desdobramentos do roubo de armas pesadas num quartel do Rio. A gravidade do episódio não dispensou os diretamente ofendidos de reagir com sensatez, minúcia e racionalidade. As evidências de cumplicidade interna são suficientemente fortes para castigar-se de modo exemplar chefes da unidade e subordinados vinculados ao crime. Mas só se levou em conta a certeza do envolvimento dos narcotraficantes.
Tal certeza, potencializada pela ira, resultou em movimentos precipitados. Não se planejaram operações conjuntas com a Polícia Militar e a Polícia Federal. Faltou o acerto com o governo estadual. O Exército agiu só.
Os articuladores do revide não examinaram a hipótese da mobilização da Força Nacional, treinada especificamente para esse tipo de confronto. A prevalência do voluntarismo apressou a intervenção militar na cidade do Rio.
Essa intervenção tem sido marcada pelo excesso de espalhafato e pela escassez de resultados. Escancararam-se a inexperiência dos oficiais nesse tipo de combate e, sobretudo, o despreparo de centenas de soldados.
Depois de uma semana de invasões, correrias, toques de recolher e muito chumbo, nenhuma das armas roubadas foi recuperada, não se tomou qualquer fortaleza do tráfico, não se capturou um único assaltante. Sim, o comércio de drogas foi reduzido, diminuiu a violência nas áreas de ocupação. Em contrapartida, cresceu extraordinariamente o medo de milhares de inocentes expostos à troca de disparos.
Forçados pelo destino a sobreviver nessas áreas conflagradas, estão há uma semana entre os gatilhos de militares e bandidos. E justificadamente aflitos: abandonados há tempos pelas instituições republicanas, constatam que quando um braço do Estado sobe o morro também sobe a temperatura nos barracos sem culpa. Até sabem que os fardados querem ajudá-los. Mas também sabem que lhes falta competência.
Os tempos modernos informam que o Exército pode e deve neutralizar tumores urbanos. Mas antes precisa saber como se luta nessa nova forma de guerra.
Pronto para a Sapucaí

Enquanto o presidente Lula caprichava no ''good morning'' decorado para impressionar a Rainha Elizabeth II, o chanceler Celso Amorim ensinava na London School of Economics como deve ser o comércio no mundo moderno. O conteúdo da palestra foi ofuscado pelo bonito epílogo do espetáculo.
À saída do prédio, Amorim enredou-se numa manifestação que acabou por sugerir-lhe uma boa fantasia para o próximo desfile na Sapucaí. Numa escola de samba cujo enredo cantasse a saga dos países pobres, ele apareceria num carro alegórico surfando entre tubarões da globalização. Vai nessa, ministro.
Dose dupla

O jornal A Gazeta, de São Bento do Sul, cometeu uma tremenda gafe na coluna social (veja acima). Na edição seguinte, o bravo semanário catarinense tentou esclarecer o incidente e pediu desculpas à vítima, Dona Laura (parte inferior da reprodução). É difícil saber o que causou mais irritação a Dona Laura: a gafe, o pedido de desculpas ou a descoberta da culpada.
Chico indica o bom caminho
Um deputado do PT defendeu na tribuna a absolvição do pefelista Roberto Brant. Um parlamentar do PFL retribuiu a gentileza com o pedido de perdão para o petista Professor Luizinho. Esses advogados dos que pecaram são pecadores também. Mas ao menos mostraram a cara. Mais detestáveis ainda são os que se ocultaram nas sombras do voto secreto e estenderam o fio da suspeita a todos os parlamentares.
Será oferecida aos interessados, nesta quarta-feira, a chance de livrar-se da desconfiança nacional. No julgamento do mensaleiro Pedro Corrêa, basta exibir a cédula com o voto favorável à cassação. É o que fará o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ). Quem preferir a clandestinidade será considerado culpado e condenado à morte política em outubro deste ano.
A festa dos fora-da-lei
Quase 1.500 integrantes da Via Campesina, ramificação do MST, estupraram a lei e a sensatez na madrugada do dia 8. Invadiram uma propriedade da Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro, no interior gaúcho, e ofereceram ao país outra amostra da reforma agrária com que sonham.
Depois de pulverizar o laboratório da empresa, o bando atacou o horto florestal. Além da derrubada de árvores adultas, destruiu 3 milhões de mudas.
Para o pelotão feminino envolvido no ataque, foi também uma forma de comemorar o Dia Internacional da Mulher. João Pedro Stédile, líder do MST, saudou efusivamente ''as corajosas companheiras''. A Justiça e a polícia fingiram nada ter visto. A Aracruz não sabe quem pagará o prejuízo de R$ 400 milhões. O ministro Miguel Rossetto sorriu.
'Só de sacanagem'
O último CD de Ana Carolina inclui o comovente Só de sacanagem, escrito pela atriz e cantora Elisa Lucinda. Segue-se o texto, em homenagem aos que votaram pela cassação de Roberto Brant e Professor Luizinho.
Meu coração está aos pulos.
Quantas vezes minha esperança
será posta à prova?
Tudo isso que está aí no ar:
malas, cuecas que voam
entupidas de dinheiro,
do meu dinheiro, do nosso dinheiro,
que reservamos duramente para educar
os meninos mais pobres que nós, pra cuidar
gratuitamente da saúde deles
e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja
na bagagem da impunidade
e eu não posso mais.
Quantas vezes minha esperança
vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis
existem pra aperfeiçoar o aprendiz.
Mas não é certo que a mentira
dos maus brasileiros
venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro,
a luz é simples,
regada ao conselho simples
de meu pai, minha mãe, minha avó
e os justos que os precederam:
''Não roubarás,
devolva o lápis do coleguinha,
esse apontador não é seu, minha filha''.
Pois bem, se mexeram comigo,
com a velha e fiel fé do meu povo sofrido,
então agora eu vou sacanear:
mais honesta ainda eu vou ficar.
Só de sacanagem.
Dirão: deixa de ser boba. Desde Cabral
que aqui todo mundo rouba.
Eu vou dizer: não importa.
Será esse o meu carnaval.
Vou confiar mais e outra vez.
Eu, meu irmão, meu filho
e meus amigos vamos pagar limpo
a quem a gente deve
e receber limpo do nosso freguês.
Com o tempo a gente consegue
ser livre, ético e o escambau.
Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto,
desde o primeiro homem
que veio de Portugal.
E eu direi: não admito.
Minha esperança é imortal.
E eu repito: ouviram? Imortal.
Sei que não dá pra mudar o começo.
Mas, se a gente quiser,
vai dar pra mudar o final.

Respeitosamente, o Cabôco quer dirimir uma dúvida que continuou a persegui-lo até durante as férias: podem ser quebrados os sigilos bancário, fiscal e telefônico de qualquer ministro do Supremo Tribunal Federal?

Essa dupla merece taça
A taça vai para um trecho do artigo assinado por Tony Blair e Lula da Silva:
''A paixão pelo futebol une nossos povos. Resta esperarmos que leve Reino e Brasil à final da Copa''.
Coisa de estadista.
augusto@jb.com.br
[12/MAR/2006]