FSP
Depois de sobrevoar a caatinga por algumas horas e passar um dia em Cabrobó, o corpo pede água. Isso é pedagógico porque nos aproxima fisicamente de um problema estratégico do nosso século.
O tema está entrando na agenda por muitos lados, como a seca na Amazônia e a greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio. Tanto o tsunami como a inundação de Nova Orleans são expressões aquosas de um processo de mudança climática, mostrando-nos como o planeta depende de sua enorme porção líqüida.
A transposição do rio São Francisco mexe com toda a minha vida política. Acrescida de um novo componente, a greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio, ela me pede respostas e me angustia porque as respostas não são fáceis.
Se entrasse hoje em greve de fome contra a transposição, estaria cometendo um equívoco. Preciso mais de conhecimento do que de jejum. O tema demanda uma abordagem mais ampla e um tempo razoável de estudo, que a crise política nos roubou.
Participei de três leis decisivas nesse campo: uma criou um sistema nacional de recursos hídricos, outra, a ANA (Agência Nacional de Águas), e uma terceira, em que fui relator, tratava da questão da outorga e do estímulo à criação dos Comitês de Bacia.
A idéia desta última é simples: cobrar pela água e destinar o dinheiro à bacia, para que recupere o rio. Quase todos os nossos rios estão pedindo socorro.
Se tanto o governo como o bispo nos dessem um pouco mais de tempo, talvez pudéssemos realizar um grande debate nacional, desta vez para além dos limites de audiências públicas com técnicos e militantes.
Na cadeia, tinha horror às propostas de greve de fome. Um tiro me levou um pedaço do estômago e tentava comer um pouco ao longo de cada dia.
Achava também que a greve de fome era uma forma de protesto político-religiosa, porque envolvia uma autoflagelação. Mais tarde, na história da Índia, compreendi as greves de fome de Gandhi, pois elas eram feitas pela encarnação da independência.
Mas já não tinha a mesma simpatia pela sua idéia de se abster de relações sexuais ainda com saúde. Isso não significa que não admire. Apenas a considero dentro de um quadro político-religioso, do qual me excluo, com minha visão laica do processo.
Considero um equívoco pensar que uma greve de fome pode tornar-se uma coisa comum, que se use diante de qualquer nova obra. Se isso acontecesse, a greve de fome simplesmente desapareceria como forma de luta, tornando-se banal e desinteressante.
O sacrifício do bispo colocou o tema da transposição na agenda, rompendo o bloqueio da crise política. O governo deveria aproveitar a oportunidade e ampliar o debate para além dos círculos especializados.
Observei entre os padres e romeiros uma grande simpatia por Lula. Um dos padres ao microfone, ouvindo um grito oposicionista, advertiu que o único grito autêntico ali era pelo rio São Francisco.
O governo está diante de um grupo que o apoiou e não rompeu com ele. Um grupo que enfatiza a revitalização e quer garantir que os projetos se destinem àqueles que mais precisam da água.
Esse problema, de levar o mínimo de água necessário para uma existência digna ao semi-árido, é um dos mais gigantescos desafios à nossa geração. Estamos de acordo quanto aos objetivos, mas divergimos quanto ao caminho. Quanto mais de acordo estivermos, menos penosa será a tarefa. Simples. O problema, no entanto, é colocar a simplicidade em marcha.
O primeiro passo é dar razões ao bispo para que se convença de que vale mais viver pelo rio São Francisco do que morrer por ele. Diante dele, como diante de Gandhi, meus argumentos partem da esfera rasa onde se não acredita em vida depois da morte.
Um dia, em Cabrobó, senti ao mesmo tempo saudade de água e percebi o que significa o São Francisco para aquelas pessoas. Acho admirável como não ficaram alucinadas naquele clima. Essas pessoas merecem saber direito o que acontecerá com seu rio porque, na verdade, é o que vai acontecer com suas vidas.
O proveito imediato que se pode tirar dessa greve de fome é a consciência de que a idéia de debate sobre o destino de um rio deve transcender os círculos estreitos. Nunca tivemos tão grande oportunidade de buscar consenso em dois temas que entram na agenda: o semi-árido e a revitalização do São Francisco.
Isso é uma novidade, pois a degradação dos rios brasileiros é um dado do cotidiano que jogamos num canto da memória, sobretudo quando não sentimos o cheiro.
Entrevista:O Estado inteligente
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