Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, outubro 10, 2006

Míriam Leitão - Primeiro confronto

Míriam Leitão - Primeiro confronto

Panorama Econômico
O Globo
10/10/2006

O candidato Geraldo Alckmin mudou. No debate da TV Bandeirantes no domingo, ele estava afirmativo, enfático, no ataque. Nada lembrava o candidato inexpressivo que merecia o apelido de "chuchu" e que gastou toda a campanha do primeiro turno apresentando-se como "médico nascido em Pindamonhangaba etc., etc.". Essas mudanças de tom, estilo e estratégia desconcertaram o candidato Lula. Depois Lula reagiu e teve alguns bons momentos. As pesquisas mostrarão se houve algum efeito eleitoral, mas claramente Alckmin ganhou o debate.

No Brasil há uma convicção - ou lenda - entre analistas de que quem toma a iniciativa de ser agressivo acaba perdendo votos, porque o eleitorado se solidariza com a vítima. Veio de uma frase que teria sido dita por Duda Mendonça de que "quem bate, perde". Isso é o oposto de como funciona nos Estados Unidos, por exemplo. Agora, na campanha legislativa de novembro, os republicanos e os democratas atacam-se direta e francamente porque os estrategistas dizem que isso é que traz melhores resultados. No Brasil, há uma convicção de que o ataque deve ser feito com parcimônia, por interposta pessoa e nunca diretamente pelo candidato. Marcos Coimbra, do Vox Populi, acha que isso é um equívoco e que já houve várias situações eleitorais no Brasil de que o candidato em situação desfavorável bateu para crescer e conseguiu.

- Alckmin está numa situação muito desfavorável; tem que atacar Lula pela vulnerabilidade. É difícil mudar a avaliação de bom governo que ele tem entre os mais pobres. A essa altura, com duas semanas para a eleição, não vai ser por aí que ele vai desconstruir a imagem do adversário, tem que ser aproveitando-se da fraqueza do outro - acredita Marcos Coimbra.

A boa imagem do presidente Lula entre os mais pobres, principalmente do Nordeste, vem da inflação baixíssima e cadente e da distribuição dos benefícios do Bolsa Família. Para mudar o voto do eleitor de Lula deste estrato social, seria preciso convencê-lo de que o que ele sente não é a realidade, explica Marcos Coimbra. Sendo assim, o caminho óbvio de Alckmin foi o de explorar outro tipo de insatisfação, a que vem dos numerosos e bizarros casos de corrupção, como o dos mensaleiros, vampiros, sanguessugas, aloprados e dólares em cuecas.

- Lula está com seis milhões e 700 mil votos na frente. Para que Alckmin vença a eleição, terá que ter um aproveitamento de 85% de votos dos demais candidatos. Abstenção, brancos e nulos foram menores que em 2002; e só não foram menores que em 1989. Nos estados onde houve abstenção maior, Lula está muito na frente: Amazonas, onde está com 75%, e Maranhão, com 77%. E, em geral, quando cai a abstenção, aumenta brancos e nulos e vice-versa - diz Marcos Coimbra.

Ele contou que, numa análise feita em eleições nas capitais, nos governos estaduais e para presidente desde 96 - ao todo 102 eleições - só houve um caso em que o candidato no segundo turno teve menos votos que no primeiro. Em geral, o candidato mantém seus votos:

- Aos 40 minutos do segundo tempo, Alckmin está perdendo e tem que fazer como aquele técnico que escala três atacantes, quatro se puder, e manda o time todo ir para frente. Foi o que ele fez no debate.

Marcos Coimbra acha que o único caminho do candidato tucano foi o que ele adotou nesse debate. No primeiro turno, Alckmin fez pouco ou nenhum ataque, e deixou as críticas serem feitas pelo locutor dos programas do PSDB. Sua candidatura cresceu exatamente quando o programa tratou mais diretamente das denúncias de corrupção. No debate da Band, ele tomou a iniciativa, logo na primeira chance que teve, ao abrir o programa, de perguntar diretamente: "De onde vieram os um milhão e setecentos mil reais em dinheiro vivo?" O candidato Lula apareceu nervoso, hesitante, precisando ler as perguntas, sem controle da situação.

Especialistas em opinião pública, como Mauro Paulino e Carlos Augusto Montenegro, preferiam não fazer uma aposta sobre o efeito do debate nas pesquisas. Mesmo quem acha que o ex-governador Geraldo Alckmin teve melhor desempenho no debate, não garantia que isso vai se transformar em votos para ele. A reação do eleitorado brasileiro é difícil de prever, por isso é preciso buscar os dados antes de tentar adivinhar o efeito. Hoje o Instituto Datafolha está em campo fazendo uma pesquisa, marcada estrategicamente para esta terça-feira para pegar o efeito do debate.

Em geral, debates têm o poder de consolidar os votos já decididos em cada candidato. Mas é possível que a nova atitude de Alckmin tenha tirado o indeciso da indecisão, e aumentado o percentual dos que apostam no tucano. Marcos Coimbra acha que indecisos são poucos a esta altura.

Segundo Montenegro, pesquisas qualitativas mostraram que eleitores de fora de São Paulo não gostaram da excessiva concentração em assuntos paulistas, o que foi um equívoco dos dois candidatos. Os eleitores teriam se sentido rejeitados pela excessiva informação sobre PCC, Febem, escolas de lata, Fatecs; assuntos estranhos ao eleitorado do Nordeste, do Sul, de Minas Gerais.

As pesquisas dirão se Alckmin conseguiu transformar seu desempenho no debate em voto, mas uma coisa é certa: confundiu seu adversário. Os assessores do presidente garantiram que Lula se saiu melhor no debate, mas, no fim da tarde de ontem, o governador eleito da Bahia admitiu que "Lula vai se preparar melhor para o próximo debate".

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