Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, outubro 10, 2006

Luiz Garcia - Ingênuos & cínicos



O Globo
10/10/2006

Duas perguntas do momento: primeira, em que circunstâncias um candidato pode ou deve aceitar apoio eleitoral que lhe é oferecido espontaneamente, sem pedido visível de retribuição? Segunda, como deve responder a quem pede que, em troca de sua adesão, cancele um projeto de lei apresentado no Congresso?

No primeiro caso, a pergunta em si é contraditória: em política, como em tantas coisas na vida, praticamente nada é de graça. A não ser o voto espontâneo do eleitor, que não precisa telefonar para oferecê-lo.

O apoio do clã dos Garotinho a Geraldo Alckmin teve o preço de uma visita com foto. Custo alto demais para a solidariedade eleitoral de um grupo com padrões éticos mais do que duvidosos e peso político em queda livre há bastante tempo. Talvez não prejudique muito o candidato do PSDB - pelo menos se considerarmos a ingenuidade um pecado venial, até mesmo no jogo político.

O pior que lhe acontecerá pode ser apenas perder a possibilidade de cobrar de Lula a aceitação de adesões difíceis de explicar. Como a do ex-governador mineiro Newton Cardoso, jamais acusado de ser um varão de Plutarco.

A segunda pergunta envolve o candidato Sérgio Cabral. Ele retirou um projeto que apresentara sobre direitos de casais homossexuais, para, com isso, conquistar o apoio do pastor Marcelo Crivella. Sérgio se justificou com dois estranhos argumentos: primeiro, o projeto estava parado no Senado; segundo, seu interesse era apenas garantir direitos individuais, não legalizar casamentos gays.

Nada faz sentido nessa resposta. Um senador com seu peso e habilidade sempre consegue fazer andar os projetos em que realmente acredita; depois, obviamente, o projeto era exatamente o que ele pretendia que fosse. Ou não é assim com tudo que Sérgio assina embaixo?

Os dois episódios definem seus protagonistas. Alckmin pecou por ingenuidade; Sérgio, por cinismo. Talvez não seja prudente catar profundas ilações em casos isolados, destinados a serem rapidamente esquecidos.

Melhor assim, ou acabaríamos concluindo algo absurdo, obviamente inconcebível: que, em política, os ingênuos sempre perdem e os cínicos invariavelmente ganham.

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