O GLOBO
Digamos que não seja mentira, mas sim propaganda enganosa ou excessos de campanha eleitoral, para usar eufemismos. Mas precisava exagerar tanto? Dez mil obras?! O problema do faroleiro que conta vantagem é que não se contenta com pouco. Ele aumenta demais. As CPIs popularizaram a figura do mentiroso modesto que tende a diminuir: revela sempre ter menos do que tem. Quando um suspeito confessa o depósito de R$ 10 milhões num paraíso fiscal, pode apostar que está subtraindo a metade. O mais comum, porém, é o exagero para mais.
Quando vi pela primeira vez na televisão o anúncio das realizações do casal Garotinho, confesso que fiquei impressionado: "É obra pra chuchu", eu disse, como se estivesse em São Paulo. Mas me assaltou logo a dúvida (no Rio essa é também uma forma de assalto muito freqüente): "Será que contaram?" "Como é que fizeram para chegar a esse número redondinho, já que não era 9.999, como em certas lojas, nem 10.010 ou 10.020, mas exatos dez mil?"
Durou pouco, no entanto, o meu questionamento. De tanto repetirem o anúncio, acabei aceitando-o sem mais discussão. Não seria eu que iria conferir os cálculos. O governo deve ter pensando assim também: "Qual é o chato que vai ter paciência de checar?" Só que na história recente do Brasil tem aparecido sempre um chato, um inesperado estraga-prazer — motorista, secretária, caseiro — para desfazer versões e desmontar farsas.
No nosso caso esses chatos foram os repórteres Carla Rocha e Fábio Vasconcellos, que passaram duas semanas comparando a lista do governo com a realidade. Prepararam-se para ver um documentário e, como eles mesmo disseram, encontraram "cenas de filme de ficção" — aliás, obras de ficção é o que não falta na relação oficial. São tantas que não caberiam neste espaço. Para dar conta, só mesmo numa série de reportagens, como o jornal tem feito.
Os repórteres pisaram em lama onde deveria haver asfalto, viram esgotos a céu aberto que no papel apareciam como canalizados, encontraram pessoas armazenando água em baldes onde se anunciou haver esgotamento sanitário, abastecimento de água e urbanização do bairro. Ouviram moradores indignados, e se surpreenderam com a fértil imaginação dos que foram capazes de transformar em obras públicas providências como limpeza de dutos de ar-condicionado, compra de remédios, assistência jurídica, atendimento odontológico a detentos, entre outras pérolas.
Não vou dizer que houve má-fé, pois seria uma grave acusação. Mas é indiscutível que fomos iludidos em nossa boa-fé. As "10 mil obras" — menos, governadora — podem não ter gerado muitos empregos, mas vão dar bastante trabalho. Ao Ministério Público.