| Míriam Leitão - As invasoras |
| Panorama Econômico |
| O Globo |
| 8/3/2006 |
Ângela Flores olhou para o revólver em cima da mesa do dono de uma revendedora e pensou que só podia ser uma tentativa de intimidá-la. "Você está pretendendo usar isso? Se não, você se incomoda de guardá-la? Porque ela me incomoda." Isso foi há vinte anos e Ângela estava no início da sua bem-sucedida carreira. Hoje ela é diretora da SHV do Brasil, junção da Minasgás com a Supergasbras. Nem todas as mulheres receberam um sinal assim tão explícito de que estavam invadindo o mundo dos homens, mas todas foram avisadas, de alguma forma. Solange Ribeiro é hoje diretora de regulação da Neoenergia e se lembra que, certa vez, trabalhando no Piauí, ouviu um homem perguntar a outro o que ela, mulher, estava fazendo lá. A questão é que Solange se acostumou a ser minoria. No curso de engenharia elétrica, em Recife, entraram 60 alunos e só quatro eram mulheres. Terminaram o curso apenas 13 dos 60 e lá estavam as quatro mulheres. A coluna de hoje fala de mulheres, seis delas, que assumiram posições de comando em empresas no Brasil. Nas 500 maiores companhias, apenas 9% dos cargos de direção são ocupados por mulheres. Elas lidam com um mundo fechado, quebram preconceitos, cuidam dos filhos, reinventam a profissão e não querem outra vida senão a de mulheres independentes. Cristiane, Eliane, Eneida, Vanda, Solange e Ângela são diferentes entre si. Uma teve filho bem no começo da vida profissional, outra quando já estava perto do topo, outra no meio. Não há fórmula única, a não ser, claro, garra e preparo. — Na aviação, sou uma das poucas, mas acho que é uma espécie em crescimento — diz Cristiane Franck, 39 anos, diretora-geral de Brasil e Argentina da Continental Airlines. Ela começou como supervisora de venda, virou gerente e diretora em 2002. No ano passado, assumiu também a operação da Argentina. É a única mulher na direção de uma companhia americana de aviação na América Latina. De européia, tem outra. Quando foi fazer uma apresentação, logo que virou diretora, leu nos olhos de alguns homens a frase: "Em que isso vai me acrescentar?" Tem duas filhas de 9 e 6 anos e acha que desafio mesmo é lidar com tudo ao mesmo tempo: — Viajo, pelo menos, 15 dias no mês, mas não deixo de me ocupar com o dever de casa das meninas. Eneida Bini, 44 anos, é presidente do grupo Herbalife há dois anos; antes foi presidente da Avon, onde trabalhou por 23 anos. Casada e com um filho morando na Austrália, Eneida diz que trabalha de dez a doze horas por dia e acha que a mulher moderna tem agora um desafio: — O equilíbrio é o maior desafio. Não somos supermulheres, queremos ser apenas seres humanos. Não precisamos, nem devemos, fazer tudo sozinhas, temos que ter ajuda nesta jornada. Cada uma delas viveu uma história singular. Eliane Aere tem 41 anos e é diretora de Tecnologia (TI para os íntimos) da Ticket Serviços, do grupo Accor. Diz que, quando entrou na área de tecnologia, sentiu que ali era exceção: — Sempre fui minoria no meu trabalho. Na área de tecnologia, 90% dos cargos são ocupados por homens. É um reduto masculino. Acha que seu segredo para subir foi muito esforço e esconder algumas lágrimas em momentos cruciais. Admite que chorou. De alegria, quando foi escolhida o melhor diretor de tecnologia pela revista "Exame", e de raiva quando, numa reunião, percebeu a indiferença com que os homens recebiam suas informações. Só que, das duas vezes, chorou escondidinho. Acha que a mulher vive entre dilemas: — É difícil tomar decisão sendo mulher. Não se espera das mulheres posições mais arrojadas. Quando isto acontece, nos acusam de masculinização. Se somos muito light , perdemos o respeito e a liderança. Para equilibrar a tensão do dia-a-dia, Eliane ocupa seu tempo com outras coisas das quais gosta muito: cinema ou teatro uma vez por semana e a Igreja Batista todos os domingos. Vanda Pita, superintendente de Responsabilidade Social do Banco Santander, tem 35 anos na vida profissional e três filhos. Acha que o equilíbrio se faz sabendo o que é prioridade em cada momento. No ano passado, deu todo o tempo disponível à filha que é mãe de trigêmeos. Uma neta teve um problema e Vanda disse que optou claramente por ajudar a filha, sem descuidar do trabalho. A Neoenergia junta as distribuidoras de energia Coelba, Celpe e Cosern e algumas geradoras. Lá Solange Ribeiro, de 44 anos, é diretora. Trabalhou 13 anos na Chesf, foi consultora em Washington, pesquisadora na Inglaterra. Decidiu ter filho depois de construir a carreira. Tem hoje uma filha de 3 anos: — Engravidar foi o máximo, trabalhei até o último dia, viajei quatro dias da última semana. Cheguei até a receber proposta de emprego grávida. Dois meses depois que minha filha nasceu, já estava numa conferência em Bariloche. Com ela. Solange acha que encontrou barreiras, como aquela do interior do Piauí quando perguntaram o que estava fazendo ali, mas acredita que a geração dela já quebrou muito preconceito. Ângela Flores está na batalha de quebrar barreira há mais tempo. É mãe de dois filhos, tem 52 anos e há 29 trabalha no setor de gás. Hoje acumula TI, Gerencial e Recursos Humanos. Cuida de 3.250 empregados e é a responsável por compras do caminhão à folha de papel. Na sua jornada ao topo, enfrentou coisas como aquele revólver na mesa de um fornecedor. — Sendo mulher a gente gasta mais saliva para convencer as pessoas da nossa capacidade. A gente tem que criar espaço. Compara a vida da mulher profissional com a de uma balança de quatro pratos que tem de estar equilibrada. Tem razão. Fácil não é, mas elas conseguiram. |
Entrevista:O Estado inteligente
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