Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 17, 2006

Luís Nassif - O NAE entre a teoria e prática

Folha de S. Paulo
17/3/2006

A tentativa de formulação de grandes metas estratégicas para o país, por meio do NAE (Núcleo de Altos Estudos), do governo federal, esbarra em problemas institucionais concretos.
Todos os países que deram certo fincaram suas estratégias em metas de longo prazo. O Brasil não consegue sair do curto prazo. O máximo que se tem são os PPAs (Planos Plurianuais), com a função de definir metas para os próximos quatro anos.
O NAE conseguiu mobilizar um time respeitável de especialistas, utilizou técnicas estatísticas avançadas e identificou 50 propostas "portadoras de futuro" -ou seja, que sobreviverão nas próximas décadas, segundo os entrevistados.
Nove grupos de pesquisadores geraram 1.300 fatos, que, depois, foram agrupados em 50 temas estratégicos. Esses temas foram trabalhados em uma matriz de impactos cruzados, uma matriz com 50 linhas e 50 colunas em que se analisou o impacto de cada tema sobre os 49 restantes.
A partir daí, definiram-se quatro cenários. O primeiro, de tendência, uma visão inercial, supondo que nada seja feito para mudar a inflexão dessas curvas. Dos 50 temas, o primeiro que se materializaria seria agricultura e pecuária, mas só em 2042. O último seria a inclusão social por meio de cotas, sem gerar racismo -que se completaria em 2101.
Definiu-se um segundo cenário, priorizando os temas econômicos -aqueles que mexem com os chamados fundamentos econômicos do país. Foram priorizados 11 temas ligados ao ambiente de negócios, do controle das contas públicas à taxa de inflação. A média de prazo de maturação dos temas baixou quase 40 anos.
Partiu-se para um terceiro cenário, da inclusão social, ligada à educação e ao conhecimento. Houve nova redução do prazo de conquista dos objetivos.
Finalmente gerou-se um quarto cenário, o pragmático político. A partir de 30 mil entrevistas, identificaram-se temas fundamentais com baixo potencial de conflito político -portanto, muito mais apetecível para os governantes. Conseguiu-se multiplicar por 40 vezes a probabilidade de o Brasil ser um país desenvolvido em 2022.
No primeiro cenário, a probabilidade de chegar desenvolvido a 2022 é de 0,8%; no segundo, de 18%; no terceiro, de 20%, e, no quarto, de 30%.
Sem virar bandeira de governo, esses estudos serão mero livre-pensar de acadêmicos. E aí se esbarra na falta de ferramentas institucionais capazes de garantir a continuidade dos programas. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que incluirá as metas prioritárias no próximo PPA, caso Lula seja reeleito. Mas não é suficiente.
No fundo, a grande discussão é sobre o fórum capaz de ser o avalista das metas acordadas. Cada governo que entre aplicará seu estilo para atingir as metas acordadas. Mas tem que haver um órgão suprapartidário para acompanhar e avalizar as políticas públicas. Sem isso, o NAE será apenas um exercício de futurologia não-realizada.
Sobre isso, voltaremos em colunas futuras.

 

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