Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 24, 2006

LUIZ GARCIA Vai faltar peixe

 

O GLOBO

Não vale hipocrisia: em ano de reeleição, quase tudo que um presidente da República faz publicamente é campanha eleitoral. Idem governadores ou prefeitos que pretendam ser eleitos qualquer coisa.

O tiro sai pela culatra ou acerta o pé do personagem quando, por ambição mal administrada, ele exagera na dose. É o que acontece, por exemplo, com as dez mil obras anunciadas pelo governador conjugal (expressão estranha, mas o que representaria melhor a verdade?) Anthony Garotinho.

Sua lista dá como realizadas obras que não saíram do papel, foram realizadas parcialmente ou sequer merecem o título de "obra". Foi o que mostraram muitos dos casos relacionados e fotografados pelo GLOBO.

Já o presidente Lula não pára de cruzar o país, insistindo numa oratória eleitoralíssima cheia de argumentos curiosos. Por exemplo, outro dia: "... Dizem que estou gastando muito dinheiro com os pobres, quando deveria estar fazendo estradas e outras coisas... Toda vez que a gente investe dinheiro num projeto industrial, que constrói ponte, viaduto, estrada, aquilo é tratado como investimento. Na hora que investe nos pobres, é gasto."

Alguém deveria lhe dizer que gastar com pobres (no caso, ajuda direta, puramente assistencialista) não é mais nem menos importante ou urgente do que investir na infra-estrutura que produz progresso, produção, empregos. Num governo racional, gastos na área social e investimentos na produção não competem entre si. Complementam-se.

A política social do governo Lula realmente tem gerado empregos na base da pirâmide. E programas assistenciais (Bolsa Família e congêneres) beneficiam os muito pobres e criam empregos de salário mínimo. Fez-se bastante. Ocorre que, entupindo a burocracia oficial com nomeações políticas, Lula tornou a máquina administrativa menos eficiente, inclusive na área social. Não surpreende que um estudo do professor Márcio Porchman, da Unicamp, revelado outro dia, tenha mostrado que os gastos sociais do atual governo em três anos foram inferiores ao do governo Fernando Henrique nos dois últimos anos do mandato.

Isso é uma rasteira no orgulho com que o presidente Lula se refere aos seus "investimentos nos pobres". O quadro fica mais confuso quando a ênfase no assistencialismo é praticamente apresentada como desculpa pelo descaso em relação ao desenvolvimento em geral. O caso das abandonadas estradas federais é típico. A perda de eficiência no controle da febre aftosa é outro.

Sem deixar de reconhecer a importância da severa política financeira palocciana, e sem negar a melhoria de vida para os muito pobres, mesmo que o Bolsa Família tenha falhas de gestão (por exemplo, quando não exige dos beneficiados a contrapartida da freqüência das crianças nas escolas) é preciso não parar de cobrar o estreitamento dos gargalos que afetam o crescimento do país como um todo. Ou alguém acha que atacar os problemas estruturais só interessa aos ricos?

Lembrando aquele provérbio oriental que todo mundo já ouviu centenas de vezes: o governo, nestes três anos, distribuiu uma boa quantidade de peixes, mas produziu poucos caniços e anzóis — agindo como se uma coisa só pudesse ser feita à custa da outra.

Para qualquer eleitor com um mínimo de senso comum, logo vai faltar peixe.

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