Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 07, 2006

Luiz Garcia Um Oscar para Hollywood

O GLOBO

Já foi ideologicamente correto falar mal do cinema americano. Denunciávamos, se bem lembro o discurso, uma campanha ideológica manobrada por Wall Street e a Casa Branca para fazer a propaganda das virtudes imbatíveis do modo americano de viver.

Todos os filmes de guerra eram patrióticos — o que fazia bastante sentido quando o inimigo era o nazismo. Mas veio a guerra fria, na qual o cinema também se prestava à defesa do establishment em quaisquer circunstâncias.

Durante boa parte do século passado, Hollywood também era uma velha dama puritana. Durante muito tempo, até marido e mulher dormiam em camas de solteiro, separados por uma vigilante mesa de cabeceira. E o sexo fora do casamento não escapava sem punição. Os atores negros se dividiam entre pacíficos velhinhos contadores de histórias e cômicos careteiros. E grande número dos vilões eram recrutados em outros ninhos étnicos.

E havia censura, não oficial, mas gerenciada pelos próprios estúdios. Por vontade própria, por pressão de Washington e por medo da Comissão de Atividades Antiamericanas da Câmara de Representantes, primeiro, e logo depois pelo macarthismo (cujo quartel-general era no Senado, especificamente na Comissão sobre Ações Governamentais, cujo braço armado, por assim dizer, era a Subcomissão Permanente de Investigações).

Anos depois da morte de McCarthy, o controle sobre a pureza étnica e ideológica de Hollywood era mantido, inclusive por vontade própria dos donos dos grandes estúdios. Durante quase toda a guerra do Vietnã, filmes sobre o conflito eram tabu, com a solitária exceção, se não falha a memória, de “Green Berets”, saga patriótica estrelada pelo infalível herói John Wayne. Do qual, pessoalmente, ninguém conseguia não gostar. Nestas bandas, não faltava quem tivesse um pôster de Guevara na parede e um lugar no coração para o Wayne dos velhos westerns.

As coisas mudaram devagar, mas mudaram. A decadência de muitos dos grandes estúdios abriu caminho para produções e cineastas independentes, e capazes de fazer filmes tão rendosos como corajosos. Talvez por terem saído de moda as sentinelas do patriotismo e da decência.

A festa do Oscar, anteontem, não marcou, é claro, o início do fim dos tabus em Hollywood. O processo já vem de bastante tempo — mas foi uma eloqüente celebração da derrota dos fariseus.

O belo filme de George McClooney sobre o macarthismo nada ganhou, mas estava entre os indicados em mais de uma categoria. Os prêmios dados a “Capote” e “O segredo de Brokeback Mountain” reconheceram o valor de obras que tratam o homossexualismo com uma dignidade e uma seriedade que um dia foram impensáveis.

É exagero dizer que assistimos ao apogeu de processo de amadurecimento da indústria. Mas a festa de domingo foi com certeza uma prova de que o cinema americano está cada ano levando-se mais a sério, e ao seu público.

Ainda dá para ter saudades do velho Wayne, mas vai daqui um oscarzinho para Hollywood. Por bom comportamento em cena.

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