Opresidente Bush anunciou outro dia um plano para criar uma democracia supimpa no Irã ao custo de pelo menos US$ 85 milhões.O projeto anunciado inclui itens como programas de TV mostrando as vantagens do sistema democrático americano. Devem ter muita criancinha brincando com cachorrinho em prado verdejante. E é concebível que, filmetes à parte, existam outras iniciativas não anunciadas que algumas pessoas consideram inconcebíveis.
Com esse projeto, Bush dá mais uma prova de ainda não ter entendido que sistemas políticos, como certos vinhos, viajam mal.
O que, no caso, é especialmente lamentável, uma vez que não existe qualquer garantia de que o atual programa nuclear dos aiatolás seja tão pacífico como eles dizem. Não é fácil, nem prudente, confiar nos desígnios pacíficos de um regime político assentado em convicções religiosas radicais. Quantas vezes isso deu em boa coisa na história do mundo?
No caso do Irã, a inabilidade de Washington é atestada até mesmo por adversários do regime local. Outro dia, em Teerã, ativistas dos direitos humanos, perseguidos pelo governo, condenaram as intenções anunciadas em Washington. Um deles, Abdolfattah Soltani — que acaba de passar sete meses na cadeia por ter denunciado espancamentos de presos políticos — afirmou que as iniciativas americanas servem apenas para que Teerã denuncie defensores dos direitos humanos como espiões americanos.
E disse Vahid Pourostad, jornalista que defende — tanto quanto pode — reformas democráticas no país: "Nossa sociedade é muito complicada. É impossível impor mudanças de fora para dentro. O que acontecerá no Irã nascerá no Irã."
Faz sentido. Entre outros fatores, são notoriamente desmerecedoras de confiança (talvez, não tanto pelas intenções e mais pela incompetência mesmo) a diplomacia e a coleta de informações americanas no Oriente Médio. O nível de eficiência pode ser comparado ao dos policiais ingleses caçando terroristas no metrô londrino.
No fim das contas, como é mesmo que se implanta a democracia no mundo árabe? Ou melhor, quem diz que o mundo árabe quer uma democracia do modelo ocidental?
Os mais bem-sucedidos governos da região têm sido longevas monarquias (ou algo parecido) razoavelmente benevolentes, mas em nada semelhantes ao modelo democrático ocidental. É o caso da Jordânia, do Marrocos, dos Emirados Árabes. Democráticos na definição ocidental, seus regimes não são (lembrava outro dia Robert Kaplan, do "Atlantic Monthly" — tomem nota do nome dele), mas ostentam as virtudes da estabilidade e de uma política externa que não joga busca-pé em fogueira.
Como agravante, a crise nas relações entre Washington e Teerã tem laços com o que se passa no Iraque. Tudo que já aconteceu no país ocupado — e não dá sinais de que vai parar de acontecer — tem a solitária virtude de mostrar para quem vier depois que uma operação militar pode derrubar uma ditadura sanguinária. Mas só derrubar, mais nada.
Substituir uma ditadura como a de Saddam Hussein por um regime razoavelmente legítimo não é conseqüência rápida e natural de uma enxurrada de balas e bombas. Até agora, não apareceu qualquer analista sério dizendo que o governo Bush fez no Iraque o que deveria fazer, como deveria fazer — e que, graças a isso, uma democracia, mesmo capenga, está nascendo no país.
Muito pelo contrário. O pior é que a estratégia para conter os aiatolás (ou para derrubá-los: não há limites para o otimismo na Casa Branca) está nascendo dos mesmos cérebros e da mesma visão do mundo que planejaram e executaram a invasão do Iraque, logo depois de derrubarem o regime de fanáticos no Afeganistão — onde até hoje, a propósito, ainda não conseguiram implantar um sistema de governo minimamente viável.