"Esta semana a Câmara dos Deputados deu mais um importante passo rumo ao passado.
O que aconteceu na noite de quarta-feira foi muito mais do que a absolvição vergonhosa de dois deputados reconhecidamente envolvidos na utilização de caixa 2 em campanhas eleitorais.
Graças à Câmara, a classe política regrediu décadas em termos de aperfeiçoamento democrático.
Primeiro, o Conselho de Ética, criado para investigar casos de quebra do decoro parlamentar, foi completa e totalmente desrespeitado, humilhado, desmoralizado.
A maioria dos relatórios aprovados pelo Conselho é produto de investigação meticulosa, detalhada, cuidadosa.
Os relatores ouvem testemunhas, pesquisam documentos, recolhem depoimento dos acusados e produzem trabalhos consistentes, que são examinados e aprovados pelo Conselho de Ética.
Pois o plenário da Câmara joga os relatórios no lixo, faz os acordos mais pavorosos e já absolveu três réus confessos: Romeu Queiroz, Roberto Brant e Professor Luizinho.
Caminhou quilômetros para trás, ao encontro do vale-tudo e da anarquia mais escancarada.
Com o vexame de quarta-feira, a maioria da Câmara dos Deputados declarou, não uma, mas duas vezes, que o uso de caixa 2 em campanhas eleitorais está liberado.
Mas o mais grave e preocupante é que, ao incentivar os deputados a desafiarem a opinião pública, o deputado Roberto Brant conseguiu a proeza de jogar toda a Câmara contra uma importante parcela da sociedade brasileira.
Foi o sinal para que ele conseguisse a própria absolvição e carregasse consigo o petista Professor Luizinho.
Ao absolver os dois deputados, a Câmara deu as costas à opinião pública brasileira.
Mais grave ainda: a Câmara mandou dizer que não lhe interessam os votos da parte mais esclarecida da sociedade.
Não lhe interessam os votos do eleitorado mais informado, preocupado com a ética na política, rigoroso na cobrança de um comportamento correto por parte de seus representantes.
A Câmara mandou dizer que não está nem aí para a opinião pública. O que lhe interessa são os votos da parcela mais desinformada, mais desassistida da sociedade.
O que lhe interessa é o voto de cabresto, a clientela dos mais variados tipos de programas assistencialistas, as populações despossuídas de tudo, que, infelizmente, são presa fácil de políticos populistas, clientelistas e fisiológicos.
Com isso, de vexame em vexame, a Câmara dos Deputados vai alegremente, ladeira abaixo, rumo ao século XIX."
Enviada por: Ricardo Noblat