Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 23, 2006

Guilherme Fiuza Alckmin, o invisível

Há muito tempo a política brasileira não produzia um fenômeno tão curioso quanto essa candidatura a presidente de Geraldo Alckmin. O governador de São Paulo atravessou toda a sua longa pré-candidatura sendo avaliado pelos entendidos como um coadjuvante teimoso de José Serra. Uma vez escolhido, é avaliado como o coadjuvante do passeio eleitoral de Lula. Nunca um político foi tão mal lido.

Desde o início da corrida dentro do PSDB, uma afirmação era repetida no noticiário quase como um mantra: o candidato só não será Serra se Serra não quiser. Assim foi até o último momento. Não se sabe de que fonte privilegiada surgiu esta informação definitiva, que todos se cansaram de repetir. O que se sabe é que Serra quis. E perdeu. Alckmin chegou a ser tratado como impertinente, teimoso, inoportuno, segregador. Afinal, era um picolé de chuchu, inexpressivo, sem densidade eleitoral e muito atrás do prefeito de São Paulo nas pesquisas de intenção de voto. O lugar, por excelência, era de Serra.

Tudo errado. Fernando Henrique, Tasso Jereissati e Aécio neves, que presidiram a escolha no PSDB, estavam carecas de saber que a dianteira de Serra sobre Alckmin nas pesquisas não significava rigorosamente nada. Quando o prefeito foi novamente ultrapassado por Lula, com o esfriamento dos escândalos, tudo ficou mais claro ainda. Reproduzindo-se a disputa de 2002, ou seja, Lula contra Serra, já conhecida e testada por todos os brasileiros, o tucano perdia de novo. Ali estava o mais eloqüente de todos os dados pró-Alckmin. No entanto, Serra continuou a ser tratado – e assim foi até o fim – como "o candidato mais competitivo", "o que tem chances de derrotar o presidente", por estar bem à frente do governador de São Paulo nas pesquisas. Um erro de avaliação primário e generalizado.

Serra é uma figura pública azeda, que não sabe sorrir. Mas em particular é cativante, divertido, altamente carismático. Daí vem sua enorme influência sobre personalidades, políticos e formadores de opinião. E aí pode estar também a única explicação para tantas teses absolutas, definitivas, indicando-o como o candidato natural, esperado, vitaminado e dominante contra um chuchu insistente. A chance de se enxergar um quadro diferente seria desviar um pouco a atenção dos conchavos de Serra e dar uma olhada para a realidade – o que às vezes é um pouco mais difícil.

Na vida real, Geraldo Alckmin é o legítimo e único herdeiro de Mário Covas, que foi grande como político e, morto, virou mito. Juntos, fizeram a maior reforma administrativa da história do Brasil, tirando São Paulo de um buraco de mais de 50 bilhões de dólares. Na prática, Alckmin vai completar 12 anos no poder no maior estado da federação, e a maioria da população aprova o seu governo. São poucas credenciais para uma candidatura a presidente?

De forma impressionante e renitente, prevaleceu no noticiário a avaliação de que Alckmin é insosso. O curioso é que o governador, uma vez decidindo-se pela pré-candidatura, saiu de seu baixo perfil habitual e deu uma série de entrevistas incisivas, categóricas, às vezes contundentes, sobre o panorama nacional e sua disposição de concorrer para presidente. Foi para a chuva, se molhou, se expôs, mostrou presença de espírito, concisão e até, surpreendentemente para um chuchu, agressividade. Bastaria uma olhada rápida em um par dessas intervenções do governador para se notar que ali estava, sem chances de erro, um candidato forte. Mas o mito do picolé leguminoso prevaleceu.

Além da embocadura, o então pré-candidato Geraldo Alckmin apresentou, na primeira hora, compromissos de governo bastante relevantes, até bombásticos, que acabaram diluídos na geléia das fofocas sobre Serra ou não-Serra. O principal deles: o governador de São Paulo acha que a primeiríssima prioridade do Brasil hoje é uma profunda reestruturação tributária, com forte redução de impostos – atenção, ele disse "redução de impostos".

Explicou que não é bondade. Apenas uma racionalização da arrecadação do governo, em lugar dos remendos de taxas, contribuições e cascatas que hoje garantem o superávit – e alimentam o monumental Custo Brasil. Nenhum candidato ou governante se compromete com isso, porque significa perda de arrecadação num primeiro momento e, mais assustador, dá trabalho. Alckmin prometeu, com conhecimento de causa, botar esse ovo de Colombo na mesa, e a platéia continuou no rame-rame de taxa Selic, desvalorização cambial e os percentuais de José Serra no Ibope.

O pré-candidato tocara em outros pontos cruciais para a vida nacional, igualmente ignorados. Um deles era a polêmica proposta de reforma do Conselho Monetário Nacional. Para os não-iniciados, o CMN está na origem da responsabilidade fiscal e de toda a reorganização econômica brasileira. É uma espécie de cérebro da economia, que tinha sido transformado em feira, com representantes de Deus e o mundo do governo e da "sociedade civil", nesses acessos de democratismo que esculhambam a administração. O CMN foi reformado e enxugado, fechando inclusive alguns ralos de créditos públicos irresponsáveis, e recentemente surgiram algumas novas propostas de voltar a ampliá-lo, encabeçadas por gente como o presidente do PT, Ricardo Berzoini, que não falha.

Alckmin declarou no programa Roda Viva: "Não vou tocar no Conselho Monetário. Não vejo razões para elevar o número de membros do CMN". No dia seguinte, em um ou outro canto do noticiário, publicava-se que Alckmin "defende a ampliação do CMN". Por essas e outras, o governador de São Paulo seguiu seu caminho de candidato invisível. "Alckmin está à direita de Lula, Serra está à esquerda", e outros Fla-Flus do tipo, continuaram servindo para fazer a espuma do debate pré-eleitoral, não esclarecer nada a respeito dos candidatos e perpetuar os mitos.

Serra está ressentido, foi atropelado pela obsessão de Alckmin, que fraturou o partido para conquistar uma candidatura sem chances reais de vitória. Parece incrível, mas é esta avaliação, absolutamente equivocada, que ainda predomina no noticiário a respeito do que se passou no PSDB.

Está em tempo de corrigir o diagnóstico: Alckmin foi escolhido candidato porque os tucanos quiseram, especialmente Fernando Henrique, Tasso e Aécio. E quiseram não para evitar um racha ou tumultos internos no partido. Quiseram apenas o que, para eles, era o melhor candidato. Que, ao contrário dos retratos eleitorais precoces, tem chances concretas de derrotar Lula e logo mostrará isso. Se for eleito presidente, Geraldo Alckmin passará à história como o picolé de chuchu mais amargo já provado pelos profetas da política.

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