Chico Heráclio, dono do poder em Limoeiro (PE), costumava dizer que o eleitor da capital (referindo-se ao Recife) "é muito a favor do contra". A máxima do último dos coronéis nordestinos poderá ilustrar o desenho eleitoral que se começa a esboçar. O eleitor das capitais e cidades grandes é menos sujeito a manobras que o dos fundões, sujeito à influência de "novos coronéis", e, com certa autonomia, deverá engrossar a massa dos "contrários", cujos ânimos tendem a se acirrar em ciclos eleitorais. A ser verdade que o voto nos conglomerados urbanos se dá de forma mais independente, a adoção ou não da verticalização partidária - pela qual a aliança feita entre partidos no plano federal deve ser seguida nos Estados - não tem tanta importância para a maior fatia do eleitorado brasileiro. Uma campanha vertical, mais fechada, acirrará a disputa porque, diminuindo o número de candidatos a presidente, deixará mais claras as diferenças entre perfis e discursos. Mas uma campanha horizontal, mais aberta, tampouco diminuirá o teor de contrariedade que marcará a campanha deste ano.
A primeira conseqüência de uma eleição com regras engessadas - caso o Supremo Tribunal Federal (STF) acate a verticalização - será a diminuição do rol de candidatos. O maior partido nacional, o PMDB, só terá condições de chegar à vitória para o governo de 15 Estados, como planeja, se fizer alianças a torto e a direito. Com candidato à Presidência da República, mantida a verticalização, a chance do partido será menor. Sem candidato, ficará livre para abrir o leque de apoios. A mesma hipótese se aplica a outros partidos, tanto os médios quanto os nanicos, que carecem atingir a cláusula de desempenho, ou seja, alcançar 5% dos votos atribuídos à representação na Câmara dos Deputados, nos Estados. A meta se tornará mais palatável caso possam buscar apoios, o que exigirá abandono de projetos de candidatos próprios à Presidência e de aliança no plano federal. Apesar de o PFL não dar como certa a aliança com os tucanos, é provável que isso ocorra, descartando a idéia de sair com candidato próprio a presidente.
Os campos serão bem definidos. A polarização entre Lula-PT e tucano-PFL assumirá grau máximo. O País verá duas campanhas: uma, no plano federal, água e óleo separados, vertical e acirrada; outra, nos espaços estaduais, café e leite misturados, horizontal, porém não menos contundente. A de cima carregará nas tintas conceituais e programáticas, com ataques aos perfis. A de baixo focará mais os perfis. O acirramento chegará aos píncaros em Estados que abrigam lutas clássicas entre PT e PSDB ou entre PT e oposições reunidas, como São Paulo (SP) e Rio Grande do Sul (RS). Os eleitores serão brindados com uma guerra de acusações recíprocas, sob a fumaça da fogueira do mensalão, que será reacendida com muita lenha. Os centros e as margens serão inundados com aplausos, gritos e apupos de blocos intensamente engajados na luta eleitoral.
A ilação a se extrair é positiva. Maior envolvimento da sociedade com a eleição significa adensamento da taxa de civismo, implicando maior grau de politização. As questões nacionais, analisadas sob a ótica dos candidatos, serão acompanhadas com atenção. O diferencial de perfis será meticulosamente avaliado. Verdades e mentiras serão filtradas por olhos e ouvidos que apuraram o senso crítico e aprimoraram a capacidade de análise, depois de contemplarem tanta bandalheira. A crise despertou no cidadão o sentimento de que promessas eleitorais se fundem em ondas de descrença. A mistificação que fez escola pelas mãos do marketing espetaculoso não mais terá abrigo nas consciências. A estética que os transeuntes enxergam nas feiras de quinquilharia das ruas - onde o universo do contrabando e das falsificações toma assento - é, infelizmente, a mesma que os cidadãos divisam nos logradouros eleitorais, onde mercadores do voto costumam embalar promessas com efeitos retóricos de alto impacto. Só que, na campanha deste ano, o sinal vermelho proibindo o baile de máscaras sairá mais das mãos do cidadão atento que de juízes às voltas com meia dúzia de proibições.
Mesmo nos Estados, onde as campanhas tendem a ser mais dispersas em razão da grande quantidade de candidatos proporcionais (deputados estaduais e federais), os efeitos da campanha federal se farão sentir, estabelecendo linhas divisórias entre candidaturas majoritárias, que mais se emparelham ao pleito federal. Por isso, nas linhas de retaguarda - como devem ser entendidas as batalhas estaduais - se aguarda um volume de tiros de grosso calibre que não fará feio ao bombardeio na linha de vanguarda. Pelo sim, pelo não, pode-se apostar que dos conflitos - central e periféricos - emergirá um País mais uniforme sob o prisma do pensamento político. Se a verticalização contribuir para apagar o fogo de alguns partidos, melhor ainda. O ideário (se é que existe) dos remanescentes se tornará mais claro.
O que pode ocorrer se o STF entender diferente do Tribunal Superior Eleitoral e considerar que uma emenda constitucional pode ser aplicada imediatamente? A quebra da verticalização deixará as campanhas mais soltas, as alianças serão costuradas com a linha do pragmatismo partidário e o pleito federal, com maior número de protagonistas, será recheado de discursos. Mas a dispersão de uma campanha desengatada não elimina a impressão de que o volume de contrariedade continuará alto, a exprimir uma espécie de produto nacional bruto da indignação. Não dá para imaginar, por exemplo, que os pizzaiolos da Câmara dos Deputados sejam aplaudidos em praça pública. Quanta vergonha pela absolvição do propinoduto! Só mesmo num país que desmoraliza as suas leis esse Pedro Stédile faz loas ao vandalismo criminoso, elogiando de público as mulheres do MST que destruíram experimentos de pesquisas no RS. Roubem! Saqueiem! Destruam! Eis as palavras de ordem da semana. A turma do "muito a favor do contra" vai aumentar, para lamento do velho coronel de Limoeiro.