Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 25, 2006

‘Falcão’, o mérito e o exagero Tutty Vasques

Tutty Vasques
Como diria o outro, "nunca na história desse país" a realidade nua e crua foi mostrada desse jeito numa emissora de canal aberto; o documentário "Falcão, meninos do tráfico" teve o efeito de um soco no estômago das elites e da classe média acovardada; um divisor de águas na percepção do problema da infância no Brasil; um marco no telejornalismo nacional; um grito de alerta à sociedade; ponto de partida de um esforço de solidariedade contra a exclusão social; incrível, chocante, revelador, inédito, aterrorizante, o horror, o horror, por aí.

Assino embaixo! Estão mesmo todos de parabéns: MV Bill, seu parceiro Celso Athayde, a TV Globo, a Cufa (Central Única das Favelas) e o escambau. Louve-se, de cara, a aposta das "Organizações" em um cantor de rap e um produtor de hip-hop. Seis anos de parceria, 90 horas de depoimentos desconcertantes e uma impressionante revelação no rescaldo das entrevistas: 16 dos 17 menores escolhidos para protagonistas da história já estavam mortos quando o programa foi ao ar. Admirável, também, a decisão de exibir a reportagem (os documentaristas – ô, raça! – não consideram "Falcão" propriamente um documentário) sem intervalos comerciais no picadinho de anunciantes do "Fantástico". Para se ter idéia do avanço que isso significa na rotina do programa, lembro que no domingo anterior, àquela mesma hora, o Brasil assistia à reportagem "O que molha mais, andar ou correr na chuva?" Ninguém merece! (Mas, se alguém ficou curioso, andar na chuva molha menos).

Uma salva de palmas para o "Fantástico"!

Se me permitem citar o outro de novo, "nunca na história desse país" um programa de variedades deu tanto o que falar. Do presidente Lula a Camila Pitanga, falaram Manoel Carlos, Márcio Tomaz Bastos, Glória Perez, Marina Magessi, o elenco de "Malhação", mais o Verissimo, ongueiros e sociólogos de plantão, eu e a torcida do Flamengo. MV Bill deve ter dado pra lá de 100 entrevistas. "Parece que está caindo a ficha na sociedade para os problemas sociais", disse numa coletiva em Brasília, enquanto ali pertinho, na Câmara dos Deputados, absolvia-se mais um que tomou grana do Marcos Valério e aprovava-se projeto de aumento de salário do servidor, herança do tempo do reinado de Severino cavalcanti.

A ficha da sociedade – ô, raça! –, com todo respeito ao MV Bill (gosto inclusive mais dele do que do venerável Júnior do AfroReggae), não cai com notícias dessa ou de outra guerra particular qualquer. Já há algum tempo o estado de coisas a que chegamos desperta no brasileiro, se tanto, indignação histérica e isso, como se sabe, não serve para nada. A opinião pública não vale nada, políticos estão pouco se lixando para ela. O Congresso perdeu de vez o sinal da voz rouca das ruas. Caiu, junto com a ficha, a ligação!

Daí um certo incômodo que me sobressalta a cada uma das inúmeras reportagens da TV Globo repercutindo a exibição de "Falcão". Criou-se em torno do documentário expectativas de salvação da Pátria. Quem acreditar nisso vai se frustrar. Maluquice pensar que o Brasil vai mudar agora que foi descoberto pelo "Fantástico". A rigor, "Falcão, meninos do tráfico" não mostrou nada que as autoridades de alguma forma envolvidas com o problema não soubessem. Nove entre 10 amigos meus também não viram ali nada de demais na habitual realidade estarrecedora das periferias, tá ligado?

A novidade talvez seja mesmo o fato de "Falcão" ter apresentado a criminalidade como ela é a um tipo de brasileiro que até então via em tropas do Exército o único remédio capaz de curar tamanha ferida. Se o trabalho de MV Bill e Celso Athayde fizer com que a classe média brasileira troque a cultura do "basta!" por um olhar mais social sobre o problema, já terá prestado um imenso serviço à sociedade. O resto é exagero!

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