| 16/3/2006 |
Por vias transversas - haja vias transversas - e ao cabo de dois meses e meio de agonia, acabou prevalecendo a lógica na escolha do candidato do PSDB à sucessão presidencial. A decisão do partido é decerto um prêmio à persistência com que o governador Geraldo Alckmin sustentou a sua pretensão, contra a alta hierarquia tucana, a começar do presidente de honra da agremiação, Fernando Henrique Cardoso, favorável ao prefeito José Serra. Quando os dois, entre outros notáveis do PMDB, resolveram romper com o quercismo e fundar uma nova legenda, o então deputado Alckmin se pôs em campo no Estado para erguê-la, com uma determinação que desconcertou os que o julgavam apenas pela sua aparente timidez. Fez então o que jamais deixaria de recomendar aos correligionários: amassar barro. Agora, não foi diferente. Convicto da legitimidade de sua aspiração ao Planalto, tanto amassou barro que construiu a seu favor uma massa crítica de apoios no apparat tucano, animando-o a reivindicar que o presidenciável da sigla fosse escolhido não pela chamada Santíssima Trindade (Fernando Henrique, o presidente Tasso Jereissati, e o governador Aécio Neves), mas pela instância partidária apropriada, o diretório nacional, onde se defrontaria com o candidato ainda não-declarado José Serra. Este, por sua vez, enredado em dilemas hamletianos sobre a conveniência de trocar o certo pelo não sabido e obcecado pela idéia de ser ungido por aclamação, ou nada, só se animou a oferecer abertamente o seu nome quando o rival já consolidara o seu favoritismo junto aos seus - e à maioria dos pefelistas, antes alinhados com o prefeito. Ao impor a condição de que não houvesse prévias, Serra devia saber que isso seria recebido como um lance de desistência honrosa. À parte a conduta de um e de outro, o que levou o PSDB a pisar em falso todo esse tempo foi um erro de avaliação política, surpreendente quando se considera a experiência e o gabarito dos equivocados. De um lado, eles se fixaram em Serra quando o mensalão empurrou o presidente Lula ladeira abaixo nas pesquisas - e se aferraram a essa posição mesmo quando eram já palpáveis os sinais de recuperação da popularidade do petista. De outro lado, deram peso demasiado a sondagens a 10 meses ou mais da eleição e aparentemente não levaram na devida conta que o antilulismo se expressava em intenções de voto em Serra em boa parte por ser, depois de Fernando Henrique, o tucano mais conhecido pelos brasileiros. Com isso, perderam de vista o que deveria estar à vista de todos: como política tem fila, o primeiro dela no PSDB - portanto o seu candidato natural - era o governador paulista. O resultado é que os tucanos precisam agora voar atrás do prejuízo e enfrentar o desafio conexo ao do lançamento do desafiante de Lula - a sucessão de Alckmin. No plano federal, as cartas faz tempo que estão na mesa: a reeleição de Lula sempre dependeu muito mais dele próprio, da sua "eligibilidade", no sentido político do termo, do que de ser esse ou aquele tucano o seu único opositor competitivo. Digam o que disserem hoje as pesquisas, com toda a probabilidade Alckmin e Serra teriam as mesmas chances em outubro. (Incidentalmente, nenhum outro partido brasileiro tem não um, mas dois nomes aptos como esses a bem conduzir o País.) No plano estadual, o que está em jogo é no mínimo tão importante. Pela primeira vez em uma década, o PSDB pode perfeitamente bem perder o Palácio dos Bandeirantes - colocando em xeque o padrão administrativo de Franco Montoro, Mario Covas e Alckmin. Eis por que todos quantos receiam a conquista do Estado pelo PT, ou pelo quercismo, voltam-se para o vencedor e o vencido da peleja presidencial no PSDB, na expectativa de que ambos rivalizem em matéria de grandeza. Até por ser quem levou a palma, o governador abdicaria de escolher entre os seus o sucessor em potencial e conclamaria o adversário de ontem a ir à luta por São Paulo mais uma vez. Do prefeito, se espera não apenas que cerre fileiras, como prometeu, em torno da candidatura Alckmin, na íngreme jornada que se prenuncia, mas que o faça na condição de aspirante ao governo estadual - o que, de resto, apressará a cicatrização das feridas abertas no infeliz processo afinal concluído no PSDB. Nenhuma pesquisa é necessária para se ter a certeza de que Serra é o único tucano capaz de barrar o retrocesso no principal Estado da Federação.
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Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, março 16, 2006
Editorial O Estado de S. Paulo O PSDB fez a coisa certa
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