Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 11, 2006

Editorial de O Estado de S Paulo Mr. Da Silva na Corte de St. James

Os ingleses estão deslumbrados com Lula - and the feeling is mutual, como dizem no seu idioma. O presidente foi recebido pela imprensa londrina, habitualmente cáustica e pouco dada a transbordamentos efusivos, com galas e salamaleques. No fim da semana passada, às vésperas da sua visita de Estado que iria até quinta-feira, ele teve da sesquicentenária revista The Economist um tratamento VIP não de todo diferente daquele que a mídia de massa costuma dedicar às celebridades do show business e do esporte. Dias depois, o austero Financial Times foi ainda mais longe ao sugerir que talvez se deva atribuir à Providência Divina a recuperação da popularidade do chefe do governo junto ao eleitorado brasileiro. Por fim, o The Guardian saiu ontem com um editorial desbragadamente intitulado Em louvor do presidente Lula, no qual afirma que o ex-engraxate e metalúrgico, que deixou de estudar aos 12 anos e cuja data exata de nascimento é incerta, mereceu a acolhida real que lhe foi dispensada.

De qualquer forma, num ponto o editorial se enganou completamente. Foi ao dizer que Lula "está no poder tempo suficiente para não ficar assombrado por passar umas poucas noites no Palácio de Buckingham". Quem dera! Um passeio de carruagem e a hospedagem na imponente sede da monarquia britânica conquistam plebeus de todas as extrações sociais. O presidente não só ficou deslumbrado com o que lhe foi dado experimentar na Corte de Saint James, como ainda extravasou o seu deslumbramento cometendo uma gafe da qual era de esperar que o poupasse a sua formidável milhagem internacional desde que ascendeu ao Planalto. "Não sei se terá um lugar no mundo em que serei melhor tratado do que fui aqui", desmanchou-se, ao se despedir do primeiro-ministro Tony Blair, com quem almoçou na célebre residência oficial de 10, Downing Street. "Se tiver, preciso conhecer logo porque saio daqui com a melhor impressão." Ficasse nisso, já seria demasiado. Mas não ficou.

Declarou-se "gratificado com o carinho de todas as autoridades, da rainha ao primeiro-ministro, dos empresários do setor industrial aos empresários do setor financeiro, do porteiro do palácio ao motorista". E arrematou, com a sua sintaxe peculiar: "Todos foram de uma gentileza tão extraordinária que eu não sei se um dia nós poderemos ser tão gentis ao retribuir para eles a gentileza que eles tiveram conosco." Provavelmente, nunca antes, é o caso de parafrasear, os proverbiais bons modos das elites britânicas tenham sido tão incensados por um dignitário estrangeiro. Há, decerto, circunstâncias atenuantes de todos conhecidas para o arrebatamento presidencial com a monarquia, o Big Business e o clintoniano traquejo social do premier trabalhista. Não se pode dizer o mesmo da conduta de alguns dos ministros que o acompanhavam. De câmara digital em punho, o titular do Desenvolvimento, o viajado e próspero empresário Luiz Fernando Furlan, fez o que adorariam os muitos milhões de turistas atraídos pela pompa e circunstância da troca da guarda em Buckingham.

Ele se autofotografou ao lado da rainha e imediatamente mostrou-lhe a imagem registrada no visor do aparelho. E o que dizer do ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende? Fascinado como se tivesse vivido um conto de fadas, o engenheiro fluminense transmitiu aos jornalistas brasileiros as seguintes informações vitais sobre o palácio onde pernoitou: o lugar é imenso, os quartos não têm chave, um valet escocês fica postado à porta pronto a atender o distinguido hóspede e - glória das glórias - "quando cheguei, minha mala já havia sido desfeita e tudo estava nas gavetas". Não com tantas palavras, a sua colega da Secretaria de Promoção Racial, Matilde Ribeiro, resumiu o sentimento unânime da comitiva brasileira: "Foi uma experiência inesquecível." Mas, como nem tudo pode ser perfeito para todos, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, desdenhou do carneiro servido no almoço de Blair a Lula e seu séquito. "Gosto é de peixe", explicou. Terminado o repasto, enquanto anfitrião e hóspede não chegavam para a obrigatória entrevista à imprensa, Gil deu de sapatear no salão - um recorde de expansividade digno do livro Guinness.

Maus passos e encantamentos - recíprocos - à parte, a momentosa visita de Estado de Mr. Da Silva não parece ter produzido resultados imediatamente perceptíveis para a agenda econômica e diplomática do governo.

Arquivo do blog