Era uma vez um partido que empunhou a bandeira da ética para seduzir a 'burguesia' brasileira, avessa às suas atávicas tendências carbonárias, simbolizadas pela então façanhuda figura do seu líder máximo, o Lula 'hoje não tô bom'.
O estratagema funcionou: enquanto, como se viria a saber, o PT agia à semelhança de 'tudo que está aí', conforme o seu jargão, nos governos municipais e estaduais que vinha conquistando, mais se excediam suas lideranças na invocação da moralidade pública como arma eleitoral para ascender ao comando do País.
E era uma vez um presidente da República que, diante das evidências incontestáveis de que um certo Waldomiro Diniz, braço direito do seu segundo no Planalto, José Dirceu, era no mínimo um extorsionário, jurou aos brasileiros que todos os eventuais ilícitos do assessor parlamentar do ministro da Casa Civil seriam apurados às últimas conseqüências. Enquanto isso, com a conivência do então presidente do Senado, José Sarney, o Planalto conseguia impedir o funcionamento da CPI dos Bingos, pedida pela oposição para apurar o escândalo em todas as suas ramificações. Só depois de mais de um ano, graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ela pôde ser instalada.
A essa altura, o mesmo presidente decerto já tinha perdido a conta das vezes em que prometera que os sinais de corrupção na administração federal direta e indireta - trazidos à luz no flagrante de suborno de um funcionário de segundo escalão dos Correios - e o pagamento sistemático de propinas a deputados, denunciado pelo petebista Roberto Jefferson, também seriam investigados em toda a sua extensão, 'doa a quem doer'. Enquanto isso, em perfeita sintonia com o Planalto, o PT e os seus igualmente inescrupulosos companheiros de viagem faziam o que sabiam e mais alguma coisa para matar no nascedouro a CPI dos Correios, ou ao menos emasculá-la para que não destampasse o lodo do governo que 'não rouba, nem deixa roubar'.
Numa frente da batalha pelo abafa e a impunidade, o governo se saiu bem. Outra CPI, a do Mensalão, morreu em surdina, sem produzir nem sequer o devido relatório de suas investigações. Em contrapartida, a comissão dos bingos, na qual a oposição prevalece, partiu do fato determinado que lhe deu origem para buscar outras peças que a ele se ligavam no vasto quebra-cabeça da corrupção petista.
Passou a ser chamada, por isso, a CPI do fim do mundo. E foi ela que, inicialmente pisando em ovos, incluiu entre os seus objetivos o de apurar os ilícitos de que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, era acusado, remontando aos seus tempos de prefeito em Ribeirão Preto e de coletorsênior de fundos para a campanha presidencial de Lula.
A barragem rebentou com a entrevista ao Estado de Francenildo Santos Costa, caseiro do clube privé da cupinchada amiga do chefe, como ele fazia questão de ser chamado ali. O moço relatou - e reafirmou numa entrevista coletiva - o que obravam naquela mansão do Lago Sul os Burattis, Poletos e Barquetes, entre um repasse e outro de dinheiro vivo e entre um congraçamento e outro com as atendentes de madame Jeany Mary Corner. Anteontem, por fim, nos 55 minutos que teve para falar à CPI dos Bingos, antes que fosse amordaçado por uma liminar impetrada no STF por um senador petista, a mando pessoal do presidente Lula, ele reiterou 'até morrer' tudo o que dissera da presença de Palocci na sede da República de Ribeirão.
Ao pulverizar com superabundante fartura de detalhes as negativas do ministro, o comprometeu irremediavelmente - nem tanto pelo que fez ou deixou de fazer no casarão, mas porque mentiu à CPI - como mentira antes sobre o avião 'alugado pelo PT' e sobre os contratos do lixo. Seria o caso de dizer que, ao pedir ao Supremo - por intermédio do PT - que amordaçasse o caseiro Francenildo, o presidente Lula também deixou escancarado o seu comprometimento com a mentira, o engodo e a corrupção - qualquer o sentido que se dê à palavra.
Dolorosa é a descoberta da existência de dois Paloccis - o dr. Jekyll e o mr. Hyde. O primeiro é uma cabeça privilegiada, um ministro da Fazenda como poucos o Brasil teve - e que se cercou no ministério de uma equipe de excepcional qualidade. O segundo, um político municipal que se fez cercar por uma máfia de desqualificados, a cujas bandalheiras nunca terá estado alheio - para dizer o menos.
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