Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, março 24, 2006

EDITORIAL DA FOLHA PALPITE DEMAIS

Apenas um Congresso que não se dá ao respeito deixa passar incólume um ataque como o desferido pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, na terça-feira. A pretexto de cobrar a aprovação do projeto de lei que institui o novo salário mínimo, saiu-se com o seguinte insulto: "Tá faltando o pessoal trabalhar mais. Eles perdem muito tempo com assuntos, como a CPI dos Bingos, que não acrescentam valor para a sociedade brasileira".
Não houvesse aí uma inaceitável afronta à autonomia do Legislativo, proferida de resto em linguagem imprópria, seria de questionar o que, no oceano de sabedoria de Marinho, "acrescentaria valor" à sociedade brasileira. O ex-presidente da CUT parece entender que apurar as suspeitíssimas relações entre seu colega da Fazenda e lobistas de Ribeirão Preto não "acrescenta valor" -de fato, se conluio houve, foi para subtrair valor ao contribuinte.
Não é a primeira vez que o ministro extrapola as suas funções para emitir conselhos em tom de ameaça.
"A oposição que tome juízo", declarou no ano passado, cobrando a votação do Orçamento. Meses antes, o sábio do Trabalho admoestara o Conselho Monetário Nacional sobre os juros de longo prazo: "Espero que o CMN tenha juízo suficiente para iniciar o processo de redução da TJLP". Marinho, vê-se, tem apreço especial pela palavra "juízo".
O ajuizado titular do Trabalho -a quem vai caber o malabarismo contábil de "demonstrar" que Lula cumpriu a promessa de criar 10 milhões de vagas- faria melhor em evitar palpites na esfera de atuação de outro Poder. As prioridades da CPI dos Bingos e as do Legislativo não lhe concernem, e um mínimo de cuidado na linguagem é obrigação de um ministro de Estado.

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