| O Estado de S. Paulo |
| 7/3/2006 |
Hoje muitos falam em nome de Mário Covas, mas poucos ouviram o que dizia ontem E se a temporada é de homenagens a Mário Covas, que ontem fez cinco anos que nos deixou e com ele levou a expectativa de uma candidatura à Presidência de um homem sobretudo consistente e coerente, vale relembrar algumas de suas análises - ainda atualíssimas - do quadro político que, de lá para cá, não se alterou muito no fundamental. Continuamos a flertar com o superficial, atendendo às conveniências do acessório, privilegiando a tibieza, exaltando a submissão mental, confundindo independência de posições com rebeldia à deriva, criminalizando o exercício do contraditório. Mário Covas foi um remador contra a corrente por excelência e temperamento. Fundador do PSDB, aliado fiel do governo Fernando Henrique Cardoso, nunca deixou, no entanto, de externar suas posições, por mais que desagradassem ao partido e ao governo. Bradou contra a reeleição numa época em que isso era quase um crime de lesa-tucanato, confrontou Antonio Carlos Magalhães em plena vigência da aliança entre PSDB e PFL, defendeu em alto e bom som muito antes de qualquer um a renovação na política econômica, pregando o fim da obediência cega aos ditames do mercado financeiro. "Para mim já está decidido que o País não pode ter como dicotomia a Fazenda ou a Produção. É uma reivindicação da sociedade que o governo faça uma inflexão em direção ao desenvolvimento", dizia em 1998, entre o primeiro e o segundo mandatos de Fernando Henrique Cardoso, quando a criação (fracassada) do Ministério da Produção dividiu ao meio o governo, entre desenvolvimentistas e monetaristas, num falso dilema em vigor até hoje. Um apanhado de trechos de duas entrevistas de Covas, publicadas no Jornal do Brasil em 95 e 98, dá uma idéia de quanto ele falou e, à luz das homenagens de hoje, não deixa de criar constrangimento pelo fato de não ter sido ouvido. O formato preserva perguntas e respostas, mas o conteúdo é alternado, misturando as duas entrevistas, pois a distância de três anos entre uma e outra não altera a coerência das posições. - O sr. apóia a reeleição? - Não, sou totalmente contra. Já fui contra na Constituinte, votei contra na revisão constitucional e continuo contra agora. - Por quê? - No Brasil, a eleição se transforma num fato publicitário mediante o qual, o tempo todo, a oposição acusa o governo de usar a máquina. E isso é notícia durante a campanha. Já imaginou o presidente da República pegando o avião presidencial e indo a Porto Alegre fazer um comício? - De que forma Fernando Henrique completará o seu programa? - Elegendo o sucessor. - No caso do Fernando Henrique, o senhor não faria uma exceção? - Não posso, porque a minha posição é sobre a tese e eu não posso defender ou deixar de defender tendo como referência o Fernando Henrique. - O debate sobre o Ministério da Produção (aqui entendido como alteração na política econômica) traduz um embate ideológico entre os aliados do governo? - Sem dúvida há embutida na proposta desse ministério uma concepção social-democrata e, se alguém imaginar que é preciso fazer uma opção entre finanças e desenvolvimento, há de fato uma divergência. - A briga hoje no governo ocorre em torno disso? - Aparentemente sim, porque tão logo o Ministério da Produção apareceu como possibilidade nascida da vontade do presidente da República, imediatamente o presidente do PFL se manifestou contra. - Qual a razão da contrariedade? - Talvez por causa de um conceito errado a respeito da explicitação de poder nesse ministério. Isso é errado, já que o poder está nas mãos do presidente e isso se refere a todos os ministérios, os que são ocupados por gente do PFL, do PSDB, do PMDB, do PPB. Não são departamentos autônomos à disposição de um determinado agrupamento. - Para que lado as coisas vão? - Para mim já está decidido e claríssimo que o País não pode ter como dicotomia a Fazenda e a Produção. O ministério não pode gerar a criação de duas superestruturas para assegurar um loteamento de poderes. É uma reivindicação da sociedade que o governo faça essa inflexão em direção ao desenvolvimento. - Isso não enfraquece a luta pela estabilidade da moeda? - Claro que não. Por que devo fazer da área econômica a resultante única? Um governo não tem que decidir entre a área financeira e a área do desenvolvimento. A estabilidade é indispensável ao desenvolvimento, mas você não pode esperar o resto da vida para pensar em desenvolvimento. - Diante dos problemas políticos causados por esse debate, não seria mais prudente recuar? - De jeito nenhum, as alianças feitas para governar não podem ser mantidas com o sacrifício de certas prerrogativas e prioridades. É razoável que o presidente esteja atento ao jogo político tradicional, mas ele não pode ver idéias que reputa indispensáveis serem sacrificadas porque uma das facções aliadas a ele diz que não pode fazer isso. Esta talvez tenha sido a maior, e também a mais ignorada, lição do legado de Mário Covas. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, março 07, 2006
Dora Kramer - Um remador contra a corrente
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