Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 12, 2006

DANIEL PIZA: Enquanto...

O Estado de S.Paulo

Enquanto...

Enquanto um inocente fica oito anos preso em Minas Gerais, o coronel Ubiratan, que comandou o massacre de 111 presos no Carandiru, é solto.

Enquanto o general Albuquerque força o atraso de um vôo comercial em Campinas, o Exército cerca o Rio e ocupa as favelas em busca de dez fuzis.

Enquanto os institutos confirmam o vôo de galinha do PIB brasileiro, o ministro Palocci é pego em mais contradições sobre uso do dinheiro oficial.

Enquanto novas informações mostram que o amigo e avalista do presidente fazia transações com Valério, um acordo entre PT e PFL impede cassações.

Enquanto o governo brasileiro põe dinheiro na construção do metrô de Caracas em vez de São Paulo, o venezuelano investe na escola de samba campeã.

O leitor pode acrescentar diversos itens à lista, mas o quadro está claro. O cidadão brasileiro é vítima contínua dos "enquantos", dos anacronismos, das inconsistências, dia e noite. E o ponto focal que surge por trás de todos esses aparentes borrões é o mesmo: a idéia de que o poder pertence a quem o ocupa, como se lhe fosse concedido o direito do uso pessoal da máquina pública. É preciso, para efeito de punição, distinguir graduações em tais abusos, mas é inegável que venham da mesma matriz, da confusão ideológica entre público e privado encontrada em todo o espectro político.

Enquanto não puder confiar em alguma medida de Justiça, o cidadão brasileiro vai continuar a ser um espectador da desfaçatez.

DE LA MUSIQUE (1)

Zeca Baleiro, pela Saravá Discos, fez um CD estupendo com os poemas de Hilda Hilst. Adaptou as dez canções da Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, o que não é para qualquer um. Considere a dificuldade: não há rimas nem refrões; e as palavras sofisticadas (pressaga, transfigurado) e as referências mitológicas - os poemas são "de Ariana para Dionísio" - tampouco fazem das canções o tipo que costuma tocar nas rádios. O que importa é que ele conseguiu captar musicalmente o que essas palavras dizem e sugerem, criando belas melodias e instrumentações. E contando com cantoras como Maria Bethânia, Ná Ozzetti, Olívia Byngton, Rita Ribeiro e Mônica Salmaso e instrumentistas como Benjamin Taubkin, Swami Jr. e Carlos Ernest.

Há um sabor de canção provençal nessas adaptações, como se escritas por uma encarnação feminina e sensual de Arnaut Daniel, mas o uso de violão e flauta também as aproxima da modinha brasileira, de Villa-Lobos e que tais. A voz poética de Ariana é "centelha e âncora", e do mesmo modo as canções oscilam entre sedutoras e tristes. Na última, uma inesperada Ângela Maria pega toda a ambivalência de versos como: "Se todos os teus dias fossem meus/ Eu te daria, Dionísio, a cada noite/ O meu tempo lunar, transfigurado e rubro/ E agudo se faria o gozo teu." Morta há dois anos, Hilda Hilst, que atingia seu máximo nas odes, ficaria feliz ao escutar esse CD. Ninguém como ela foi tão profana e platônica ao mesmo tempo, e Zeca Baleiro a traduziu em notas e timbres.

DE LA MUSIQUE (2)

Outro excelente CD é Day Is Done, de Brad Mehldau, que volta ao Brasil em junho para tocar no Auditório Ibirapuera. Acompanhado por Larry Grenadier no baixo e Jeff Ballard na bateria, ele toca, entre outros, Radiohead, Burt Bacharach, Nick Drake, Paul Simon e duas composições suas. Mas não se trata de embalagem jazzística para o pop-rock. Mehldau não faz apenas variações harmônicas e improvisos em cima de uma melodia reconhecível; reinventa essa melodia, expande suas possibilidades sensíveis. Em She's Leaving Home (Lennon e McCartney), que já fez ao vivo aqui, há uma passagem em que, à la Glenn Gould, faz quase uma redução matemática do tema para, assim, no paradoxo que é da própria arte musical, revelar o quanto é imaterial. E em Granada (Chris Cheek) transforma o sotaque mouro num moto-perpétuo, em que a música parece ganhar vida própria. Juntos, somos suspensos.

CADERNOS DO CINEMA

Não vi Crash, de Paul Haggis, a zebra da noite do Oscar. Os jornais deram no máximo três estrelas. Prometo ver. Mas imagino que a pulverização dos prêmios não teve a ver com motivos ideológicos ou morais, e sim com o fato de que há justamente um excesso de filmes três-estrelas em cartaz. Mesmo meus preferidos Capote - que pelo menos levou o Oscar de melhor ator, mas é um filme exclusivamente sobre um escritor e seus dilemas - e Munique - o grande injustiçado da cerimônia, pela polêmica maturidade de Spielberg - não merecem mais que tal qualificação. Houve quem comparasse essa safra de filmes "adultos" ou "políticos" à dos anos 70, mas faltou nela uma obra-prima, ou ao menos uma obra de arte que não vá ser esquecida daqui a uma década.

Uma característica para a qual faltou chamar a atenção foi a presença do estilo documental nesses filmes de ficção, obviamente com exceção de Brokeback Mountain. David Denby, na última edição da New Yorker, comenta três documentários propriamente ditos (entre eles dois indicados na categoria para o Oscar, Street Fight e Darwin's Nightmare), notando que uma das razões para a força recente do gênero é a tecnologia digital, além da demanda da TV por assinatura; mas também que a atmosfera política e os conflitos culturais estimulam o jornalismo audiovisual. Nada inspira como a realidade.

VALORES VIRTUAIS

Joseph Epstein, na revista Commentary (www.commentarymagazine.com): "Minha preferência seria que alguns poucos jornais sérios pudessem tomar um caminho mais elevado: ficar mais inteligentes em vez de emburrecer, honrar os princípios da integridade e imparcialidade em sua cobertura e se tornar instituições que mesmo aqueles que discordam delas teriam de respeitá-las pela coerência de suas posições editoriais. Imagino esses jornais dirigidos por editores que pudessem escolher por mim - como nem a internet nem eu mesmo podemos fazer - os temas, as questões e os problemas sérios do dia e, com a ajuda da inteligência nascida da preocupação, dar a cada um a ênfase que merece. Aparentemente um jornal que seguisse essa rota perderia espaço; mas ao menos faria isso numa nuvem de glória, atirando com vigor."

NOVAS FRONTEIRAS

Levei minhas filhas para a Nanoaventura no shopping Market Place. O evento, que vai até o dia 15, é da Unicamp e pretende divulgar a nanotecnologia. As crianças assistem a um vídeo de introdução e depois, em grupos, participam de quatro "estações" em que simulam montar circuitos, limpar moléculas, injetar remédios em células, etc. O espírito de "game" predomina sobre a absorção de conceitos - o que é a escala "nano" e quais utilidades a tecnologia pode ter -, mas a iniciativa é louvável e merecia ter sido bem mais noticiada.

RODAPÉ

A Bienal do Livro de São Paulo já começou, felizmente num local mais acessível, o Anhembi, e sou simpatizante do evento porque atrai muita gente, há algumas mesas de debate curiosas e porque é possível encontrar livros não tão recentes de editoras pequenas que normalmente são ignorados por nossas livrarias. Mas é preciso dizer que não são muitos os lançamentos realmente interessantes, afora alguns que já citei por aqui (Thomas Bernhard, Frank Kermode, reedições) depois do fim de ano, e que sinto falta da vinda de número maior de grandes nomes, como tem feito a Flip.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Tenho viajado bastante e usado sempre o aeroporto de Congonhas, que passa por bem-vindas reformas de ampliação ("fingers", estacionamento, etc.). Mas o caos ainda é tremendo. Não há pouso que não atrase por causa do tráfego, as filas para táxi são enormes, a sinalização continua insuficiente. O pior é a insistência em fazer passarem pelo mesmo caminho os carros que se dirigem ao embarque e os que partem do desembarque. Em todo aeroporto grande, que eu tenha visto, essas vias não se confundem.

Por falar em caos urbano, outra reclamação: por que cargas d'água estão construindo um viaduto na Avenida Roberto Marinho que apenas corre por cima dela mesma e de um trecho da marginal Pinheiros? Muito mais útil seria chegar ao outro lado do rio, de tal forma que pudesse fazer da avenida uma opção para caminhões que atravancam a Bandeirantes no trajeto interior-litoral.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Nelson Pereira dos Santos foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Pessoas se espantam. Bem, como cineasta, pode-se dizer que ele fez mais pela literatura brasileira, adaptando Vidas Secas e fazendo documentários sobre Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, do que muitos que lá estão.

E-mail: dpiza@estado.com.br Site: www.danielpiza.com.br

Aforismos sem juízo
A única fortaleza do escritor é seu impulso de escrever.

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