Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 15, 2006

Chuchu à mesa Celso Ming

O ESTADO DE S PAULO


ming@estado.com.br

Há 2.400 anos o símbolo eleitoral mais conhecido na Grécia Clássica foi a cebola. Foi assim que o ateniense Péricles prometeu comida para o povo.

Hoje, no Brasil, o legume está de volta aos palanques. Não a cebola que arranca lágrimas de quem a descasca, mas o inofensivo chuchu, que pega qualquer tempero.

O mercado financeiro saudou a sagração do governador Geraldo Alckmin como candidato a sucessão do presidente Lula com alta de 2% na Bolsa e queda de 0,4% na cotação do dólar. E isso começa a dizer alguma coisa sobre o que se pode esperar da política econômica do próximo governo.

Ganhe Lula, o que hoje parece mais provável, ou ganhe Alckmin, fica difícil apontar diferenças de orientação nesse campo. Se o candidato fosse José Serra, as diferenças seriam mais acentuadas. Paradoxalmente, Serra ficaria mais confortável se propusesse uma política à esquerda de Lula.

Embora longe de ser formulada, a proposta de política econômica do candidato Alckmin tem tudo para se parecer mais com o da administração Fernando Henrique: conservadora nas políticas fiscal e monetária e talvez mais ambiciosa no gerenciamento do que foi até aqui o governo Lula.

Como, nas grandes linhas, é difícil diferenciar a política econômica de Lula da de Fernando Henrique, também é complicado demais separar as diferenças entre as prováveis propostas de Lula e Alckmin.

No pronunciamento de ontem, Alckmin adiantou que empunhará as bandeiras da eficiência e das reformas, nada do que Lula pudesse discordar.

Embora critique asperamente toda a administração Lula, especialmente a política de juros e a política cambial, o empresariado paulista (e provavelmente também o brasileiro) vinha alimentando uma natural rejeição ao pré-candidato Serra, justamente de quem se poderia esperar mais mudanças na condução econômica.

O chamado setor produtivo o considera personalista, intervencionista e mais propenso a decisões imprevisíveis. Para esses empresários, as propostas de Alckmin, embora ainda não formuladas, embutem grau de surpresa muito menor.

Embora integrante do governo Fernando Henrique, primeiro na condição de ministro do Planejamento e depois como ministro da Saúde, Serra foi um crítico ferrenho da política conduzida pelo ministro Pedro Malan. Sempre brigou por mais proteção à economia e por mais dirigismo na condução da política cambial e da política monetária. Mais do que tudo, pregava a adoção de um desenvolvimentismo ativo, não importando aqui o que isso então significasse.

Em janeiro, Serra pregou uma política de "responsabilidade cambial". Até agora não se sabe que animal é esse nem o que pretendeu Serra quando lançou a idéia. Há anos, ele faz graves restrições ao Mercosul e à Zona Franca de Manaus, sempre com razão.

Mas a questão mais importante não é tentar vislumbrar diferenças no trato da economia no governo que comandará o País a partir de janeiro de 2007. É saber como fica a governabilidade. Se Lula vencer as eleições, terá mais dificuldades para costurar sua base de apoio no Congresso do que teve no primeiro mandato porque o PT deverá perder representação. Se Alckmin vencer, também lhe faltará base parlamentar.

Na entrevista publicada há duas semanas pela edição eletrônica da revista inglesa The Economist, o presidente Lula falava dessa dificuldade: "Não importa quem se eleja, o presidente terá de formar uma coalizão, porque o sistema eleitoral brasileiro não permite que um único partido tenha 300 deputados federais ou 50 senadores. Você só consegue formar uma coalizão com gente que queira fazer parte dela. Não consegue isso com a oposição."

O ideal seria uma coalizão que incluísse PT e PSDB. Na administração atual isso não foi possível, já afirmou o ex-presidente Fernando Henrique, porque o PT (leia-se o ex-ministro José Dirceu) não quis o entendimento. Nada indica que uma coalizão assim seja formada no próximo governo. Nada indica, também, que não seja.

Quem sabe se possa dizer que a moderação com que a oposição (especialmente PSDB e PFL) tirou proveito da crise do mensalão e a ausência de grandes divergências na economia mantenham as portas abertas para uma aliança desse tipo. Quem sabe.

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