Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 19, 2006

CELSO MING Sem saída

OESP
 
O dólar segue sua trajetória em direção aos R$ 2 e não há uma só proposta consistente que consiga reverter essa tendência.
Neste ano (até sexta-feira), a cotação do dólar caiu 9,1%.
As exportações agora crescem menos do que as importações, mas ainda produzem grande sobra de dólares; o prêmio de risco está caindo e isso afugenta
o medo de investir no Brasil, portanto mais capitais deverão chegar e derrubar as cotações; continua a fartura de dólares lá fora, ou seja, o bom ambiente externo não deve criar turbulências no interno; a percepção sobre a melhora dos fundamentos da economia tende a segurar os dólares no País; e tem o fator juros, a ser analisado adiante, que também trabalha pela valorização do real, ao contrário do que tanto se diz.
Empresários, analistas, políticos, ministros, dirigentes sindicais, consultores - é enorme o contingente de críticos. Falam
da 'valorização artificial do real'; da 'desastrosa política cambial'; da desindustrialização causada pela perda de competitividade do setor produtivo; do juro escorchante que atrai capitais, que derrubam o dólar...
O setor da administração pública mais malhado pela vertigem do dólar é o Banco Central.
A acusação é a de que os juros lá
em cima atraem capitais especulativos e derrubam o câmbio.
Mas ninguém fez mais para evitar o deslizamento do dólar do que o Banco Central. Comprou cerca de US$ 40 bilhões no câmbio à vista e pôs em marcha uma vasta operação de troca de dívidas em dólares por dívida a juros básicos (Selic).
As propostas sobre o que fazer para mudar esse jogo são de
uma pobreza atroz. A Fiesp apresentou um projeto de reforma do câmbio que libera o mercado. A idéia é a de que, uma vez aprovada a reforma (o que levaria uns bons meses e dificilmente sairia em 2006), a procura de dólares aumentará muito e as cotações voltarão a seu curso histórico. Mas pode acontecer o contrário: se qualquer um puder comprar dólares a qualquer hora, ninguém sentirá necessi dade de estocá-los e, por isso, poderá haver uma enorme desova.
Outra sugestão é desonerar as importações para que a procura maior de moeda estrangeira reequilibre as cotações. Mas disso o empresário não quer nem ouvir falar, por achar que abriria o mercado para o produto chi nês. As notícias de que as importações têm reagido não são vistas como solução, mas como novo fator de desindustrialização e perda de mercado interno.
Grande número de empresá
rios acha que o problema básico é a excessiva exportação de commodities: minério de ferro, soja, açúcar, café e, agora, petróleo. Por isso, pede a criação de um Imposto de Exportação pa ra desestimular 'o embarque de produtos com baixo valor agregado'. Mas não faz sentido pedir desvalorização do real para estimular as exportações e, ao mesmo tempo, a imposição de confisco que as desestimule.
Finalmente, os juros. Sempre há aqueles que afirmam que a derrubada dos juros será a alavanca da mudança. Mas as coisas podem funcionar ao contrário. Queda consistente dos juros mostra melhora dos fundamentos da economia, tende a derrubar o prêmio de risco e, portanto, pode atrair mais capitais. Os juros estão caindo desde outubro e, no entanto, o dólar ainda não parou de afundar.
Quer saber? A maneira mais eficaz de virar esse jogo é bagunçar a política econômica, provocar inflação e fuga de capitais - o contrário do que o País tentou nos últimos 20 anos.
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