Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 21, 2006

Augusto Nunes A vestal decaída na hora da guilhotina


JB

Encarregado pelo Conselho de Ética de relatar o processo que incluiu João Paulo Cunha na turma do mensalão, o deputado Cezar Schirmer, do PMDB gaúcho, examinou o caso com minúcia e rigor. Amparado na formação jurídica, na independência intelectual e na determinação de fazer justiça, o relator montou um documento devastador.

Schirmer implodiu a fragílima linha defensiva improvisada pelo ex-presidente da Câmara. No lugar do castelo de cartas viciadas, hasteou o estandarte da verdade. Em países civilizados, seria dispensado de gastar vela com mau defunto: João Paulo estaria na cadeia há tempos, condenado pelos muitos crimes que cometeu. E o parlamentar gaúcho se dispensaria de provar o amplamente comprovado.

Como o Brasil é muito longe, a criatura do Pântano dos Corruptos vai completando oito meses de impunidade. E o Relatório Schirmer não foi homenageado no Conselho de Ética com a devida maioria esmagadora. Nove integrantes garantiram a aprovação do texto. Cinco se atreveram a votar pela rejeição do indesmentível. A bancada dos cínicos ignora limites.

No grupo dos cúmplices de João Paulo figuravam quatro comparsas de ocasião e, claro, Ângela Guadagnin, carioca que chegou à Câmara graças aos eleitores da cidade paulista de São José dos Campos. Única representante do PT no Conselho, Ângela lembra um buldogue domesticado pelo avesso. Em vez de acordar o dono da casa assaltada, só rosna para avisar ao assaltante que a polícia está chegando.

Derrotado no Conselho, o pecador busca socorro no plenário, confiante na misericórdia dos colegas e em péssimos exemplos que considera animadores. A absolvição do Professor Luizinho, por exemplo, pareceu-lhe muito estimulante. "Acho que comigo vai acontecer o mesmo", prognostica. "Tenho amigos em todos os partidos, inclusive no PSDB e no PL". Não há restrições partidárias para o ingresso no clube dos patifes corporativistas.

Se lhe restar algum juízo, a Câmara não absolverá João Paulo. Se a aliança do cinismo triunfar, 3 de outubro de 2006 poderá ser lembrado como o Dia da Vingança. Basta que os brasileiros saibam promover, nas urnas, a maior e mais feroz faxina ética. Caso sobreviva até lá, terá chegado a hora dessa vestal que caiu na vida e gostou. A alma dissimulada permitiu que, durante bastante tempo, desfrutasse gulosamente dos prazeres da vida devassa.

Às vésperas do julgamento de João Paulo Cunha, é hora de repetir episódios inesquecíveis. Por exemplo, a reação do então presidente da Câmara à manchete do Jornal do Brasil na edição de 24 de setembro de 2004: "Planalto paga mesada a deputados". O escândalo foi resumido nas primeiras quatro linhas da reportagem de Paulo de Tarso Lyra, Sérgio Pardellas e Hugo Marques: "O governo montou no Congresso um esquema de verbas e cargos para premiar partidos fiéis ao Planalto. Chama-se mensalão". João Paulo resolveu vestir a fantasia de herói do Legislativo.

A sindicância aberta no dia 25 para apurar a denúncia seria a mais rápida da história. Em duas horas, os sherloques de araque decidiram que a acusação era improcedente. O bravo presidente virou fera ferida. Exigiu direito de réplica. Prometeu castigar o jornal e os repórteres com uma indenização de bom tamanho. Motivo: "danos morais". O país ainda não sabia disso, mas João Paulo já aprendera que não se perde chance de ganhar dinheiro.

O numerito não foi muito longe. Hoje, o herói de anedota caminha para o cadafalso. Enquanto espera a hora, deveria reler aquela edição do JB.

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