E deu no que estava previsto. O presidente Lula voltou de mãos vazias de mais uma viagem oficial à Inglaterra. Nenhum interesse, nenhuma promessa nem verbal mais séria de investimentos no Brasil. Blair foi amigavelmente delicado - todos sabem que ele gosta do Brasil -, disse que ia ver com os outros chefes de governo a proposta da reunião presidencial para tratar de mudanças nas regras da OMC e ficou nisso, e abraços.
Mas a viagem trouxe uma novidade aparentemente importante. Lula anunciou que o Brasil está disposto a fazer concessões nas áreas industrial e de serviços, para destravar o impasse da liberalização comercial. É verdade que Lula condiciona a concessões nas questões agrícolas também dos outros países da OMC, leia-se EUA e UE. Pode parecer que fica o dito por não dito, pois isso já é uma história velha, mas é a primeira vez que a afirmação é feita não por ministros que se desmentem a toda hora, mas pelo chefe da Nação.
Por mais que se tenha cautela com o que Lula costuma dizer, desta vez ele não falou para a platéia interna; desagrada mesmo a muitos industriais brasileiros, principalmente aos médios que produzem mais para o mercado interno e se abrigam nas federações na luta contra mais abertura comercial, a maior parte para evitar concorrência. Isso os obrigaria a investir e aprimorar o nível de produtividade, esforços desnecessários enquanto houver proteção oficial para seus produtos.
INGLATERRA É AINDA PIOR!
Na última coluna, apresentamos números mostrando que a Inglaterra não investe no Brasil, mas com dados até 2004. Nos sites oficiais vi que a Grã-Bretanha representou só 2,2% das nossas exportações totais em 2005! Mas vejam o que encontrei no site do Banco Central. Na verdade, a Inglaterra havia investido US$ 250 milhões em 2004. Mas em 2005, no ano passado, foram só US$ 153 milhões! Estamos no finzinho da lista, perdendo até para o Uruguai. A liderança na América Latina está com o México, onde eles investiram nada menos que US$ 1,661 bilhão. Não há surpresa, pois os mexicanos, em vez de formarem um bloco econômico com a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, preferiram aquele parceiro que sempre hostilizamos, os EUA, o "herói dos heróis" dos déficits comerciais com seus ávidos consumidores comprando e importando tudo, até bolinha de gude. Os ingleses praticamente pararam de investir no Brasil desde 2000.
Vocês sabem quanto os investimentos ingleses representaram dos investimentos globais que o Brasil recebeu no ano passado? Pois aqui vai, 0,7% ante 6,4% da Alemanha e 6,7% da França. Resumindo, a Inglaterra representa 2,2% das nossas exportações e 0,7% dos investimentos externos que recebemos! Muitos países europeus ainda acreditam e investem no Brasil, estão prontos a correr risco, mas a Inglaterra, absolutamente não.
Morei cinco anos em Londres e lembro que os empresários e investidores com quem eu conversava sempre mudavam delicadamente de assunto quando eu levantava o tema investimento. Vinham os elogios corteses à pujança potencial desse belo e imenso país do futuro. Nada mais. Uma espécie de "amor à distância", que sempre dura mais...
Essa atitude ficou confirmada na viagem de Lula. Ele mesmo ficou emocionado com a forma quase amorosa que recebeu do povo, do governo e dos empresários ingleses, nunca tinha sido tratado tão bem antes...
ACREDITAR? POR QUÊ?
Recebi sexta-feira um e-mail perplexo do leitor Renato Junqueira Meirelles, advogado, que esclarece muito bem o esperado fracasso da visita. "No mesmo dia em que Lula, acompanhado de seu 'staff inteligente', Furlan e Palocci, se reunia com empresários britânicos convidando-os a investir e, para isso, salientando as profundas mudanças no panorama financeiro nacional, no Rio Grande do Sul, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, 2 mil mulheres da Via Campesina e do MST invadiam e destruíam o laboratório da Aracruz Celulose. Jogavam por terra trabalhos científicos e de pesquisas de mais de 20 anos."
E dá para confiar? Algumas empresas ainda se arriscam, mas os ingleses, não. E, a manter-se este clima no campo, não contido pelo governo - até indiretamente estimulado -, as empresas agropecuárias, como um todo, que representam mais de 50% das nossas exportações, a única arma que ainda temos para crescer, certamente não vão se sentir seguras nem terão estímulo para vir para o Brasil.
Os próprios ministros andaram ouvindo isso por Londres. "Sim, mas estamos estudando, vamos dar mais um tempo..."
Tudo isso explica por que os investimentos diretos externos estagnaram no Brasil. E infelizmente continuarão estagnados e retraídos, até mesmo os nacionais. E isso não só porque outros países oferecem melhores oportunidades, mercados interno e externo, câmbio, juros civilizados, impostos bem menores, mas porque infelizmente o Brasil é um país que não tem nem planos nem metas.
E sabem quem disse isso? Não fui eu não. Foi Furlan, com o peso de sua obra extraordinária num governo que o hostiliza nos bastidores da burocracia.
Mas que foi bonito ver o nosso presidente na carruagem ao lado da rainha, ah! foi. Mesmo que a veneranda senhora não mande nada no país que a venera.
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