| O Estado de S. Paulo |
| 16/3/2006 |
Dois cenários de contrastes. A economia brasileira deve crescer mais neste ano puxada pelos gastos eleitorais de todos os tipos e a dos EUA pode recuar por causa do aumento dos juros, que podem passar de 5%. Como ela representou 20% do crescimento global nos últimos dois anos, pode-se prever expansão menor do PIB mundial. A diferença é que os EUA podem sustentar um grande e crescente aumento da dívida pública porque recebem financiamento externo e o País não pode correr o risco porque não conta com a credibilidade e o potencial que têm. VEM AÍ A FESTA No Brasil, o governo vai fazer uma festa de investimentos em obras de rápido curso e grande efeito, economicamente viáveis ou não; isso pouco importa. Vai haver benefícios para a população. Enfim, tudo que cative o eleitor desiludido. Esse eleitor que acreditou e não acredita mais é o personagem principal nesta festa econômico-eleitoral. Já está entrando dinheiro a rodo. O mercado vem aceitando bem os papéis do Tesouro, os juros caíram, mas ainda compensam muito, dívidas em dólares estão sendo trocadas por dívidas em reais. É mais dinheiro circulando ou um endividamento maior do governo, que deve passar, neste ano, de bem mais de R$ 1 trilhão. E, se precisar, o presidente poderá sempre mandar emitir reais para sustentar sua campanha de obras e gastos. E a inflação e os desequilíbrios fiscais? Bem, este passou a ser um problema de segunda ordem, para ser analisado no próximo ano, seja quem for o eleito. Estados, municípios e mais um exército de candidatos estão seguindo o cordão da gastança, buscando patrocinadores que nunca faltam. É um filme que já vimos e conhecemos o final sempre negativo e, às vezes, dramático. Tudo o que foi feito nestes três anos pode pôr-se a perder simplesmente porque Palocci cedeu e a equipe econômica, em vez de renunciar, como dizem que Joaquim Levy está fazendo, foi atrás. Tem saída? Não. É isso o que está acontecendo e assim vai ficar até outubro. EUA AGÜENTAM? Nos EUA, o déficit em transações correntes deu um salto de US$ 218 bilhões para US$ 224,9 bilhões no quarto trimestre, totalizando US$ 805 bilhões. E está sendo puxado pelo déficit da balança comercial que não pára de crescer. O presidente do Fed, Ben Bernanke, admitiu que está "muito preocupado". Pela primeira vez deixou clara a sua posição: a manter-se este ritmo, o Fed será levado a aumentar ainda mais os juros. Em Wall Street já se trabalha com a hipótese de um juro acima de 5% até o fim do ano, entre outras medidas, igualmente contracionistas, que pesarão não só nos EUA, mas na economia mundial. HÁ DINHEIRO, MAS... Por enquanto, os déficits americanos vêm sendo facilmente sustentados pela entrada de investimentos externos, que superaram mesmo o saldo negativo das contas correntes, US$ 278 bilhões no último quadrimestre. Ao analisar a fonte desses recursos, Alessandra Ribeiro, da Tendências, mostra que, desse total, US$ 129 bilhões foram ativos financeiros. Houve um aumento significativo na compra de títulos do Tesouro americano, que passou de US$ 40,8 bilhões, no terceiro trimestre, para US$ 70 bilhões no quarto. Mas, lembra, os investimentos diretos recuaram de US$ 48,4 bilhões no terceiro trimestre, para US$ 30 bilhões nos últimos três meses de 2005. "Esses números evidenciam que a economia americana segue sendo muito beneficiada por compra de ativos financeiros, e não tanto por investimentos diretos, como no passado." É o resultado de juros mais altos que têm dupla função, conter a inflação e atrair recursos externos. Mas, a médio prazo, ambos levam à contração. A HISTÓRIA SE REPETE Analistas detectaram um fato novo neste ano. Há exemplo do passado: os investidores estrangeiros começaram a ficar atraídos para a compra de ativos fixos: empresas e imóveis. Antes eram os milionários árabes, agora são os chineses e não faltam europeus desanimados pela estagnação. "Enquanto tivermos déficits comerciais (que podem chegar a US$ 900 bilhões neste ano), os estrangeiros continuarão comprando ativos financeiros. Não vêem riscos aqui. Agora, estão começando a comprar empresas, querem investir", constata Phillip Swage, do American Enterprise Institute. No fundo, ainda acreditam que, mesmo com uma redução do ritmo de crescimento e o aumento da dívida, o mercado americano ainda é a opção. A conclusão é que vamos ter um ano artificialmente bom, no Brasil, por causa só do fator eleitoral, um ano regular nos EUA e na economia mundial cuja exuberância hoje duvidosa, nos poupou em 2005 de uma desaceleração mais dolorosa.
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Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, março 16, 2006
Alberto Tamer - Brasil cresce, EUA recuam
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