O coronel não era propriamente avesso ao progresso. Por exemplo, lembro quando as saias encurtaram e ele apoiou grandemente a nova usança. Chegava mesmo a cumprimentar algumas moças pelo exuberante vigor juvenil de suas pernas de fora e, se alguma dava sopa, ele alisava. Ele sempre gostou de umas alisadinhas nas moças - e nisto confesso que saí a ele, se bem que, não entendo por que, pareça minguar cada vez mais o número de moças que aprecia uma alisada. A juventude de hoje é muito difícil de entender.
Sim, mas meu avô deve ter lido em algum livro do século 19 uns dois vaticínios alarmantes sobre os mecanismos elétricos, porque a verdade é que de fato nunca tocou em nada elétrico, nem no interruptor de uma lâmpada. Se precisava que acendessem a lâmpada, chamava alguém entre seus muitos agregados para pôr a mão naquele instrumento que se comunicava com forças demoníacas. Nem mesmo quando inventaram a pilha e explicaram a ele que era uma eletricidadezinha fraca, que não dava choque, ele só saía à noite com o caminho iluminado por uma lanterna na mão de um acompanhante. Telefone, nas raríssimas vezes em que o utilizou, ele só pegava com um lenço e não encostava a orelha, ouvia a uma distância prudente. E, mesmo assim, virou surdo seletivo pouco tempo depois, o que lhe dava uma excelente desculpa para manter a longinqüidade do telefone.
Tampouco conheceu televisão. A gente ligava o aparelho na sala e ele imediatamente se retirava. Já fora da sala, num lugar de onde era impossível ver a televisão, ele ouvia pacientemente nossos argumentos. Era em preto-e-branco como nas fotos, mas as imagens se mexiam, falavam. ''É como cinema'', disse alguém de fora certa vez, desconhecendo a circunstância de que ele também jamais entrou num cinema.
- Creio, creio - dizia ele. - Podem deixar, que um dia desses eu venho ver.
Nunca foi, é claro. Da mesma forma, não há fotos dele em ''instantâneos'', como se dizia na minha infância, quando a maioria das máquinas exigia que os fotografados ficassem imóveis até a ''chapa'' ser batida. Já homem feito, eu tinha uma máquina então muito moderna e rápida, mas nunca consegui pegar um instantâneo dele. Uma vez quase cheguei lá, mas ele descobriu a tempo e, desse dia em diante, mandava confiscar a máquina, enquanto eu estivesse na ilha. Mas tirava fotos, sim. Contanto que perfilado, altaneiro, sério, de paletó e gravata, banho tomado e um ''extratozinho'' (perfume), que minha avó passava por trás da orelha dele, depois de ele fingir protestos. Uma vez eu disse a ela que perfume não saía em retrato (foto) e ela desdenhosamente retrucou ''mas sai a elegância''.
Mas por que estou falando tudo isso, que não tem nada a ver com o que se passa em torno? Aí é que vocês se enganam, tem, sim. Não haverá entre vocês quem não esteja começando a cansar de abrir uma geringonça antigamente inútil ou inconcebível, para perceber que ela já está obsoleta e, o que é pior, para usar a próxima, você vai ter que comprar e aprender um programa inteiramente novo? Não me refiro somente aos velhotes, ou mais para lá do que para cá, mas a gente aí de seus 30, 40 anos, que embarcou entusiasta na onda da internet, usa tudo quanto é tipo de aparelhinho imaginável, tem um celular que pega a BBC, passa a ferro e resolve problemas de cálculo infinitesimal, mas agora vê que não faz mais nada na vida a não ser mexer com essa bagulhada. O computador e seus assemelhados vieram para facilitar o trabalho - e realmente facilitam muito. Mas quantas pessoas trabalham bem mais no computador e para o computador do que no seu trabalho propriamente dito?
Leio aqui numa revista americana que muita gente, inclusive jovens, já anda de saco cheio. Antigamente, para regular o som, o sujeito dispunha dos botões de volume, graves e agudos. Alguns metidos a besta tinham médio. Não complicava a vida de ninguém. Aí vieram os equalizadores, cheio de regüinhas e freqüências para escolher, com o sujeito usando tabelas, medidores incompreensíveis e horas de seu tempo para achar a configuração certa, com a qual seu melhor amigo jamais concordará, levando ao desespero obsessivo que já acomete milhões e milhoas. Pelo menos dêem um tempo, umas semaninhas, para a gente conviver brevemente com algo de que gosta, mas cuja extinção é decretada tiranicamente em prazos cada vez mais curtos.
Para não falar nas mudanças sociais quiçá indesejáveis. Outro dia, uma conhecida nossa, dona de casa, indagada sobre o que fazia, respondeu:
- Sou viúva de computador. Uma CW - Computer Widow or, as the case may be, Widower. Já é classificação internacional. Você chega e diz ''sou uma CW'' e todo mundo entende logo que seu marido não pôde vir porque está reconfigurando o Word, ou coisa assim. Mas a batata deles está assando.
- Como assim?
- Já estamos fundando um clube de CWs, unissex. Eles vão ver o que é bom para a tosse.