É o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, quem explica o que, na prática, o governo pretende com isso: "A idéia é financiar projetos de infra-estrutura em países pobres na América do Sul ou na África", afirma.
Mas, ministro, o Brasil tem enormes problemas de infra-estrutura. Faltam estradas, portos, aeroportos, ferrovias, pontes, hidrelétricas, armazéns gerais... Olhaí o caos urbano por falta de metrô, viadutos, avenidas, rodoanel... Falta tanta coisa e, no entanto, o governo agora vai se meter a construir para os outros com o dinheiro do supersovado contribuinte brasileiro?
Bernardo admite não conseguir responder a todas as perguntas, mas defende a proposta com entusiasmo: "Esse ponto talvez não seja imediatamente compreendido, mas é preciso avançar por aí. O Brasil hoje é um player importante no mundo e tem objetivos estratégicos. Não podemos deixar a vizinhança para trás. Os capitais brasileiros estão comprando ou se associando a empresas na Argentina, na Bolívia, no Paraguai, na África... Só em Angola atuam cerca de 2 mil empresas brasileiras, das quais 200 com boa presença. Isso está provocando certo mal-estar e reações nacionalistas, não em Angola, mas em países da América Latina. É preciso ajudar essa gente a construir seu futuro."
E o ministro Bernardo prossegue: "O presidente Lula entendeu que a hora é de ocupar espaços, antes que cheguem os chineses e outros asiáticos e desempenhem papéis que não estamos assumindo."
Por aí se vê que o Brasil receia ser visto como imperialista ou, então, que outras potências se antecipem e implantem modelos neocolonialistas na sua relação com países da área de influência do País.
"É uma loucura o que a China está fazendo na África" - continua o ministro. "Lá pelas tantas, encostam um navio com 3 mil chineses e, em vez de empregarem mão-de-obra local, ficam eles produzindo nas terras e nas minas e levam embora o que retiram. Não vamos fazer isso. Vamos adiantar recursos para empresas brasileiras para que executem projetos que permanecerão lá."
E, é claro, as novas descobertas de petróleo nos campos pré-sal, na Bacia de Santos, não ficarão de fora da estratégia de relação com o resto do mundo:
"Temos de decidir o que queremos. Se seremos apenas auto-suficientes ou se nos transformaremos em exportadores de petróleo e derivados" - observa. Quando, em tom de brincadeira, o presidente Lula declarou que o Brasil vai entrar na Opep, o pressuposto é de que o País se torne grande exportador.
Mas não é só isso. Parte das receitas provenientes das contribuições especiais e dos royalties obtidos com a produção do petróleo deverá contribuir no futuro para o aumento do patrimônio do Fundo Soberano - como admitiu o ministro Guido Mantega.
Bernardo revela que uma das propostas mais quentes hoje é usar esses recursos na expansão e na melhora do nível da educação no País.