Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 04, 2007

História O príncipe que sonhou ser imperador do Brasil

O homem que sonhou reinar

A história esquecida de Pedro Augusto, o neto
de dom Pedro II que foi preparado para lhe suceder


Ronaldo Soares

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A historiografia brasileira convive, há 140 anos, com uma sombra. É a parte que trata da vida do príncipe Pedro Augusto de Bragança Saxe e Coburgo, primogênito da princesa Leopoldina, a filha mais nova de dom Pedro II. Quase ninguém ouviu falar nele, apesar de ter sido preparado pelo avô, durante quase uma década, para ser o futuro imperador do Brasil. Era visto assim no país e até nas cortes européias. A infância gloriosa, cercada dos mimos que se conferem a um futuro monarca, foi progressivamente substituída pelo amargor de uma juventude sob intensa disputa familiar e intrigas políticas. Mas nem mesmo uma vida de fortes emoções e disputas políticas lhe foi possível. Suas chances de lutar para liderar um império se dissolveram com a proclamação da República. Pedro Augusto, jogado ao ostracismo, enlouqueceu e acabou morrendo em um manicômio na Áustria. Apesar dessa trágica sucessão de fatos, sua vida foi esquecida pelos livros escolares e pelos historiadores em geral. Essa é a bruma que começa a se dissipar em O Príncipe Maldito – Traição e Loucura na Família Imperial (Editora Objetiva; 36,90 reais; 296 páginas), da historiadora Mary Del Priore, que chega às livrarias no fim do mês.

A história de Pedro Augusto também ajuda a compreender melhor o drama da sucessão que mobilizou o Brasil na segunda metade do século XIX. Dom Pedro II chegou a ter dois filhos homens, mas ambos morreram antes de completar 3 anos. A princesa Isabel, a filha mais velha do imperador, não conseguia engravidar nos primeiros anos de seu casamento com o conde d'Eu. A aflição da falta de um sucessor era intensa. Foi em meio a essa angústia que surgiu a notícia da gravidez da princesa Leopoldina, a filha mais nova do imperador. Pedro Augusto nasceu em 1866, no Rio de Janeiro, e desde o primeiro momento catalisou a atenção da corte. Com ele, a sucessão estaria garantida. "Como era o neto predileto de dom Pedro II, espalhou-se a sensação de que ele poderia suceder ao avô no trono", afirma o historiador José Murilo de Carvalho. O império, enfim, dormia mais tranqüilo.

Pedro Augusto parecia talhado à perfeição para o trono. E o país o tratava assim, até que a princesa Isabel finalmente engravidou, dez anos depois do casamento. Pela Constituição do império, o filho mais velho de Isabel seria o natural sucessor de dom Pedro II. E esse passaria agora a ser Pedro de Alcântara, que nasceu em 1875. Começou ali o drama pessoal que viria a se converter na trágica história do príncipe Pedro Augusto. A idéia de que não seria mais o ocupante do trono era devastadora. "O menino começou a somatizar o drama. Tinha insônia e tremores nas mãos", diz Mary Del Priore. A vida não teria sido tão aflitiva se a possibilidade de suceder ao avô tivesse se encerrado ali para sempre. Mas a discussão se arrastou, porque servia aos interesses políticos de então.

O Brasil vivia as tensões da campanha abolicionista e do movimento republicano. Era o tipo de ambiente no qual florescem as mais cruéis intrigas palacianas. A rede de boatos do império se pôs a funcionar para semear a discórdia na família imperial. Pedro Augusto se tornou um instrumento útil. Sobretudo diante da indisfarçável predileção de dom Pedro II por ele. Faziam programas juntos, iam ao teatro e passavam horas observando as estrelas, um dos hobbies do imperador. Formado em engenharia, Pedro Augusto tornou-se estudioso dos minerais. O que o fazia ainda mais cativante, segundo Mary Del Priore, era o fato de ser inteligente, divertido e envolvente. Acompanhando o avô em viagem pela Europa, era recebido com entusiasmo pelas cortes locais. Estava ali o sucessor ideal do monarca. Nas ruas, Pedro Augusto passou a ser conhecido como "o favorito", evidenciando a disputa que foi travada aos sussurros nos corredores do palácio imperial. O sucesso do príncipe na Europa, comentado em jornais da época, acirrou os ânimos da princesa Isabel e de seu marido, o conde d'Eu.

O clima na família era conturbado. Pedro Augusto não se dava bem com o primo, Pedro de Alcântara. Havia uma rivalidade latente. Também não simpatizava com os tios, por mais que as diferenças não fossem públicas. Ciente das pretensões de Pedro Augusto ao trono, Isabel questionava o pai sobre a sucessão, à qual se referia como la grosse question (a grande questão, em francês). Em meio à turbulência política da época, ganhou força o boato de que dom Pedro escolhera a data de seu aniversário, 2 de dezembro, para abdicar em favor de Isabel. Os que disseminavam essa versão sustentavam também que a princesa, por sua vez, abdicaria em favor do sobrinho. Mas a proclamação da República roubou os últimos sonhos de Pedro Augusto. Ele tinha 23 anos quando, já abatido por surtos psicóticos, fugiu com a família para a Europa. Os surtos se agravaram progressivamente. Chegou a ser atendido por Freud, então um jovem médico austríaco. Aos 27 anos tentou o suicídio, transtornado pelo boato de que o primo que odiava havia assumido o trono brasileiro. Viveu solitário e teria morrido virgem, aos 68 anos, após passar 41 deles atrás das grades de um manicômio. Seu esquecimento foi quase completo. Essa lacuna começa a ser preenchida agora, restituindo à historiografia brasileira um personagem fascinante.






Fotos Reprodução/Lula Rodrigues e Museu Imperial/IPHAN/MINC
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