Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 16, 2008

Dora Kramer - Na horta do vizinho




O Estado de S. Paulo
16/5/2008

A 20 dias do prazo fatal para deixar o Ministério do Turismo e virar oficialmente a candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy até agora só viu a chuva irrigar a horta do vizinho.

Em matéria de alianças, ela e seu partido têm sido espectadores de sucessivas adesões de aliados do presidente Luiz Inácio da Silva às campanhas dos adversários: primeiro o PMDB, depois o PR, em seguida o PTB.

Os dois primeiros juntaram-se ao prefeito Gilberto Kassab, o terceiro acaba de aderir ao ex-governador Geraldo Alckmin e o bloco das legendas integrantes da coalizão federal faz forfait, resistindo a fazer parte de um arco de alianças em tese talhado para ser amplo, mas que por enquanto se restringe ao PT.

Não deixa de ser inusitado esse, pelo menos aparente, isolamento. O campo adversário conta com boas atrações, é verdade: o apoio das máquinas estadual e municipal, com o principal candidato de oposição à sucessão de Lula, José Serra, na batuta.

Mas Marta Suplicy dispõe de capital mais que suficiente para seduzir: a máquina federal, o primeiro lugar nas pesquisas e - trunfo fenomenal - Lula na batuta.

Com tudo isso, não tem seduzido ninguém. Ao contrário, nas últimas semanas, quando apareceu em público para falar sobre alianças, Marta só pôde falar sobre as conquistas dos outros.

Assim como quem olha as uvas caindo de maduras, mas tem a obrigação de achá-las ainda verdes, a ministra reduz a importância e atribui essas adesões a "escolhas normais dos partidos, de acordo com suas metas e interesses".

De fato, as metas e os interesses das agremiações é que teoricamente deveriam levá-las a compor com Marta. Mais não fosse, ao menos para agradar ao presidente Lula, dando a ele suas inestimáveis contribuições para aumentar o tempo do horário gratuito da candidata do Planalto na mais importante disputa municipal do País.

Mas, não, preferem se juntar ao prefeito Kassab, terceiro colocado nas pesquisas, e ao ex-governador Alckmin, com todo o corte de energia imposto a ele pelo Palácio dos Bandeirantes.

Esquisito, não? E põe esquisito nisso.

Impávida, Marta Suplicy declara sua confiança na ampliação de seu arco de aliados, convicta do sucesso das "conversações" conduzidas pela direção do PT.

É de se perguntar quem são, nesta altura, os interlocutores de peso disponíveis na praça para o prosseguimento das "conversações".

O PDT está enrolado muito acima da linha do pescoço com as peripécias de sua mais expressiva liderança local, o já notório deputado Paulo Pereira da Silva.

O PSB chamou Luiza Erundina às falas publicamente e a obrigou a recusar o convite aceito, também de público, para ser vice de Marta.

O PC do B finca o pé na candidatura do deputado Aldo Rebelo, que nutre uma simpatia, digamos, estupenda pelo governador José Serra.

Os três ainda podem vir a se coligar com o PT em São Paulo? Claro que podem, mas os percalços prejudicam a boa impressão.

No mínimo, suscitam questionamento sobre os motivos de a base de sustentação de Lula não aderir por gravidade à candidatura do PT em São Paulo.

Talvez não queiram pura e simplesmente facilitar a vida do PT paulista, ou de Marta Suplicy, uma possibilidade de candidatura presidencial muito mais verossímil do que as hipóteses ora em cartaz.

Mas, e o presidente Lula, como fica nesse quadro? Será que apóia Marta "ma non troppo"? Não faz sentido, em tese é o maior interessado em impor uma derrota aos tucanos na estratégica Paulicéia.

Agora, fato é que Marta esperou de Lula um pedido explícito para se candidatar e não obteve. Pediu a ele ajuda para fazer alianças e os aliados do presidente não param de aderir aos adversários.

Mas, ainda assim, não faz sentido. O presidente pode até não amar Marta de paixão, mas sabe que descartável eleitoralmente ela não é. E por profissionalismo a nomeou ministra. Natural que se fizesse fiador da candidatura junto à sua base.

Sinceramente? Não dá para entender. Alguma coisa não fecha nessa história.

Olho clínico

Observação registrada pelo prefeito do Rio, César Maia, em seu "ex-blog": "Ao escolher renunciar nesta conjuntura de conflitos amazônicos - ambientais, étnicos e territoriais - e com a presença do governo alemão onde a questão ambiental é levada a sério, a senadora Marina Silva mostrou uma capacidade de escolher o momento da batalha que só uma craque em comunicação poderia conferir. Passa a ter uma simbologia mais forte que Heloísa Helena, cuja expressão é guerreira, mas desprovida de tema."

Em matéria de marketing político, Maia sabe das coisas, fotografa bem o senso de oportunidade, mas apontou como forte o que talvez seja o ponto fraco de Marina: a temática. Insuficiente para despertar emoções eleitorais, porque no Brasil pouca gente leva a sério a questão ambiental.

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