Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, agosto 01, 2007

Celso Ming - Controlador de boiada




O Estado de S. Paulo
1/8/2007

A entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) está ficando tão forte que começa a preocupar quem vinha se afligindo com o efeito dos juros altos sobre o câmbio.

Ontem, nesta mesma página, o professor Antonio Corrêa de Lacerda pediu uma política que direcionasse o fluxo dos investimentos externos para setores prioritários e que desestimulasse os destinados a atividades consideradas menos essenciais.

Ele critica o fato de que a maioria dos recursos que aportam no Brasil se destine à aquisição de capacidade já instalada. E sugere que os investimentos, além de cobrir projetos novos, sejam direcionados para as áreas de químico-fármacos, eletrônicos e bens de capital, cujo déficit comercial alcança US$ 18 bilhões por ano.

Nessa posição há problemas. O primeiro deles é pretender controlar o investimento numa economia não centralmente planejada. O governo Lula não consegue sequer garantir investimentos já decididos e projetados em estradas ou em hidrelétricas, não pode pretender nomear burocratas para se postar à porteira e decidir que boi pode passar.

Em segundo lugar, ainda que se justificasse a existência de uma política de investimentos, não faria sentido controlar apenas uma fração deles. O investimento total no Brasil corresponde a cerca de US$ 220 bilhões por ano. Tentar controlar apenas o IED equivaleria a deixar de fora em torno de US$ 200 bilhões.

O terceiro problema é a idéia de que investimento em capacidade instalada é desperdício. Não consta que os acionistas minoritários da Arcelor, que em junho receberam da Mittal US$ 5,3 bilhões, torraram o dinheiro em baladas e mesas de pôquer. Em geral, dinheiro que vem para aquisição de empresas já existentes é redirecionado a outros investimentos. Além disso, a compra de capacidade instalada é, quase sempre, apenas o primeiro passo. Como informa o especialista Ethevaldo Siqueira, as 29 empresas do sistema Telebrás foram privatizadas em 1998 por US$ 19 bilhões e, no entanto, depois outros US$ 70 bilhões chegaram para aumentar a capacidade.

O quarto problema está em imaginar que, dentro de uma eventual política de triagem de investimentos externos, o critério de escolha fosse reverter déficit comercial. Quem está preocupado com a excessiva desvalorização do real provocada pelas exportações não deveria pretender investimentos que preferencialmente provocassem ainda maior desvalorização do real.

Finalmente, não se pode esquecer do setor de serviços. Muita gente - não é o caso de Lacerda - entende que esse setor não é produtivo e, portanto, não deve ser alvo preferencial de investimentos. No entanto, ensino, turismo, transportes, software, tecnologia de informação, comércio varejista (supermercados), finanças, engenharia, logística e tanta coisa mais são fatores de ganho de produtividade que um porteiro para o IED não seria capaz de avaliar.

Melhor deixar que o investidor decida onde investir e que assuma todo ônus e os benefícios dessa decisão.

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