| Dora Kramer - Um salto de qualidade |
| DORA KRAMER |
| O Estado de S. Paulo |
| 12/4/2006 |
Os números dizem pouco a respeito do que pensa e espera o eleitorado Há no ar um inconformismo - misto de aflição e pessimismo - com a situação relativamente estável do presidente Luiz Inácio da Silva nas pesquisas de opinião. Aqui, ali e também acolá, as pessoas se perguntam qual a razão de Lula manter a dianteira na preferência do eleitorado se permeia o ambiente um sentimento de rejeição - misto de decepção e revolta - à possibilidade de mais quatro anos de governo do PT. A leitura mais apressada (ou a única possível diante dos números) leva à conclusão de que uma coisa são os fatos outra coisa é a figura do presidente. Como se o eleitorado não tivesse ainda ligado o nome à pessoa no tocante ao produto desses três anos e três meses transcorridos desde a ascensão dos petistas ao poder. Embora forneça uma explicação, esta hipótese de distanciamento é irrealista. Tão fantasiosa quanto se dizer que fulano "é louco" ou beltrano "ficou doido" quando não conseguimos entender uma situação ou ações aparentemente absurdas. Ausências totais de juízo não são assim tão corriqueiras. Tampouco a nação é composta de uma maioria de néscios desinformados, carentes absolutos de discernimento. Além do mais, a pesquisa leva em conta as diversidades da população a fim de garantir o critério da amostragem. Então, o que ocorre com os números que insistem em fazer crer na disposição da maioria dar seu voto a Lula contrariando o que se ouve em toda parte, teriam ficado "loucos"? Ou refletiriam uma perda coletiva de senso? Obviamente, não. Há que se considerar todas as hipóteses. Talvez queiram dizer isso mesmo, refletir uma preferência pelo atual presidente. E aí teríamos de admitir a existência de duas realidades paralelas: uma da opinião corrente e a outra refletida nas pesquisas. Se for isso, o que as pessoas dizem umas às outras não teria nada a ver com o que elas dizem aos pesquisadores dos institutos de opinião. Uma situação realmente intrigante, para não dizer esdrúxula, difícil de desvendar, quase impeditiva de qualquer análise razoavelmente próxima da verdade eleitoral. Mas talvez o xis da questão não esteja nos números em si, mas no fato de servirem de parâmetro exclusivo para traduzir o que pensa o cidadão a respeito do governo, da conduta da oposição, dos próprios anseios e expectativas sobre o futuro de cada um, da coletividade, do País. Percentuais são insuficientes, não dão todas as respostas, números são cheios de razão e ocos de sensibilidade para refletir as nuances da vontade popular. Dizem quase nada a respeito dos pensamentos, dos pesos e das medidas adotados na composição do perfil do governante, senão ideal, ao menos razoavelmente satisfatório. De alguns anos para cá, o País acostumou-se a um certo comodismo, alimentado pelos meios de comunicação, de observar candidatos e movimentos eleitorais apenas sob a luz das pesquisas quantitativas e dos programas do horário gratuito. Deu-se uma pasteurização do noticiário e, por que não dizer, uma certa idiotização de ambos os lados: dos candidatos e dos eleitores. A lógica do sobe e desce dos números foi num crescendo tal que extrapolou o período eleitoral, agora serve de critério de avaliação durante todo o transcurso dos governos. Se um presidente tem percentuais altos, quer dizer que é bom. Se "cai" nas pesquisas, imediatamente se conclui o contrário. Com isso, os dados do mundo real ficam em segundo plano. Quando começa o horário gratuito a situação se agrava, pois a propaganda toma conta da cena como fator único de convencimento. Só os números das pesquisas e, depois mais perto da eleição, a arquitetura dos marqueteiros, têm validade. Um vai alimentando o outro num círculo de superficialidades, onde contam também os ataques recíprocos. Tudo mais fica relegado ao terreno das irrelevâncias. Assim ocorreu na eleição de 2002 e assim tudo indica ocorrerá outra vez se não houver a consciência do equívoco e um salto de qualidade no debate político hoje reduzido a uma gangorra de percentuais sem maior significado.
A denúncia que o Ministério Público Federal ofereceu ao Supremo Tribunal Federal, em resumo acusando o PT de ter recorrido a um esquema criminoso para se manter no poder, é devastadora. Corrobora e vai muito além do relatório da CPI dos Correios, pois trata-se de uma peça de conteúdo jurídico, tirando do PT e dos acusados o argumento de que a crise de 2005 foi patrocinada, alimentada e sustentada única e exclusivamente pela guerra eleitoral. Derruba as teses de defesa baseadas da alegação de falta de provas e sobretudo deixa muito mal o plenário da Câmara, que absolveu vários dos denunciados por corrupção pela Procuradoria-Geral. Nada se diz a respeito do presidente da República, mas a questão que se levanta é cristalina: se crime houve para sustentar um governo, o beneficiário último - o chefe do governo - pode ser eximido de responsabilidade? |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, abril 12, 2006
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