Entrevista:O Estado inteligente

sábado, julho 12, 2008

Reação burra


O que leva o noveleiro Manoel Carlos a ter
razão numa briga que comprou com os atores


Marcelo Marthe

Joao Miguel Jr/Divulgação

O DEFENSOR DA CLASSE

CAIO BLAT, ator (em carta de resposta
a Manoel Carlos)

"Em seu desprezo generalizado pelos atores,
ele esquece que suas histórias jamais teriam
repercussão alguma sem o brilho de centenas
de intérpretes que deram vida a seus personagens. O cronista, sim, perdeu uma bela oportunidade
de ficar calado"

Há duas semanas, um desabafo do noveleiro Manoel Carlos deu início a uma celeuma no meio artístico. Em sua crônica semanal na revista Veja Rio – veiculada junto com VEJA no Rio de Janeiro –, o autor da Rede Globo se mostrou indignado com as bobagens escritas e ditas pelos atores, em especial os da televisão. Declarou sentir vergonha das "declarações pífias, equivocadas, algumas pretensamente inteligentes, mas burras em seus propósitos" que representantes da categoria vêm emitindo nos jornais, revistas e programas de TV ultimamente. Manoel Carlos lamentou que eles não fiquem calados quando não têm nada a dizer. Citou então frases de atores estrangeiros, de Charles Chaplin a Clint Eastwood, como exemplos do que considera manifestações que fazem jus à inteligência. E deu um conselho: "Que nossas atrizes e atores aproveitem o inverno, enfiem-se na cama com um bom livro e aprendam a pensar e a dizer alguma coisa além daquilo que decoram como personagens de ficção". O noveleiro não cita quem o deixou tão tiririca da vida – fala apenas em gente que conhece "há dez, vinte, trinta anos" e outros "bem novinhos". Mas houve quem se sentisse ofendido por seu texto. Atores da novela das 6 da Globo, Ciranda de Pedra, lançaram uma carta coletiva de protesto, em que acusavam o autor de "um ato de censura" à classe. Um deles, Caio Blat, enviou uma carta pessoal à revista. "O cronista, sim, perdeu bela oportunidade de ficar calado", escreveu.

Manoel Carlos não foi a primeira pessoa – e certamente não será a última – a tornar pública sua irritação com as asneiras proferidas por atores. O cineasta Billy Wilder nunca escondeu que achava Marilyn Monroe, estrela de seu filme Quanto Mais Quente Melhor, uma burra. O colega Alfred Hitchcock disse que atores mereciam ser tratados como "gado" (veja quadro). É claro que esses têm todo o direito de externar sua irritação com tais farpas – mas organizar abaixo-assinados contra a opinião de quem quer que seja é demais. Esse tipo de manifesto em rebanho, quer dizer, em grupo, é autoritário e estúpido em sua essência. Em 2003, um artigo ácido do poeta Nelson Ascher sobre o intelectual palestino Edward Said ensejou um protesto semelhante que levava a assinatura de gente como o crítico Antonio Candido e o escritor Milton Hatoum. O repúdio coletivo equivalia a abdicar de qualquer discussão. O simples fato de ser alvo de um abaixo-assinado por levantar um tema indigesto já dá total razão a Manoel Carlos.

A polêmica causou mal-estar nos bastidores de Ciranda de Pedra. No elenco da novela há um grupo de "atores-cabeça" – entre os quais Caio Blat, com seu gosto por saraus, é um dos expoentes – que se mobilizaram contra Manoel Carlos. A carta-resposta ficou exposta num mural no estúdio da Globo onde a novela é gravada. Mas ao menos uma atriz de peso reclama de ter sido surpreendida com o envio de uma carta em nome de todos sem que tivesse sido consultada previamente. "Em todo esse episódio, o que me chamou a atenção foi me criticarem por querer calá-los e pedirem, ao mesmo tempo, que eu me cale", diz o noveleiro. E completa: "Querem a liberdade só para eles. Que liberdade é essa?".

Malhadores de atores

Ricardo Fasanello/Strana

MANOEL CARLOS, noveleiro (em crônica na revista Veja Rio)
"Tenho lido e ouvido muitas bobagens escritas e ditas por nossos atores e atrizes. São declarações pífias, equivocadas, algumas pretensamente inteligentes, mas burras em seus propósitos.
Sinto uma certa vergonha por lamentar que não fiquem calados quando nada têm a dizer"

ALFRED HITCHCOCK (1899-1980), cineasta
"Eu nunca disse que todos os atores são gado. O que eu disse é que todos os atores deveriam ser tratados como gado"

H.L. MENCKEN (1880-1956), jornalista
"Já fui um crítico de teatro profissional, mas desisti porque assistir às atuações estava fazendo mal à minha saúde. Tudo o que via eram pessoas mais ou menos charmosas tentando agir naturalmente"

BILLY WILDER (1906-2002), cineasta (sobre a atriz Marilyn Monroe)
"Os seios dela são como granito, mas o cérebro é como queijo suíço"

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