Entrevista:O Estado inteligente

sábado, julho 12, 2008

A tempestade Maiakovski


A vida intensa e os versos extraordinários
do maior poeta russo do século XX


Felipe Fortuna, de Moscou

Montagem sobre foto de Roger Viollet/AFP
O poeta Maiakovski e, ao fundo, reprodução da capa desenhada por seu amigo, o artista plástico Alexander Rodchenko, para o livro Maiakovski Sorri, Maiakovski Ri, Maiakovski Zomba

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Trecho do livro

O que pensar de uma tempestade? Vladimir Maiakovski (1893-1930), o maior poeta russo da era soviética, se expôs, como uma força da natureza, a todo tipo de contradição: buscou destruir o passado literário, mas ao final defendeu a tradição dos grandes poetas de seu país, como Alexander Pushkin e Andrei Biéli. Apresentou-se como o escritor do futuro – do apogeu da máquina, da eletricidade e do urbanismo –, e se viu emaranhado na burocracia e nos equívocos que sucederam na União Soviética, após a Revolução de 1917. Como a tempestade, o poeta foi excessivo e intenso na vida e na obra, mas decidiu interrompê-las em pouco tempo: suicidou-se com um tiro aos 37 anos incompletos. Como deve ser no caso de um grande poeta, a biografia Maiakovski: o Poeta da Revolução (tradução de Zoia Prestes; Record; 559 páginas; 68 reais) trata tanto da arte longa quanto da vida breve, ambas atravessadas não apenas pela Revolução Russa, mas também por uma guerra mundial e pelo dogmatismo sanguinário de Joseph Stalin. Embora sempre simpática ao autor de A Plenos Pulmões, a biografia produzida por Aleksandr Mikhailov (1922-1994), crítico especializado em poesia russa do século XX, não deixa de apontar o dilema torturante de que Maiakovski jamais pôde escapar: poesia ou política?

Tinha razão o escritor Kornei Tchukovski: "É muito difícil ser Maiakovski". Forças contraditórias agiram sobre o poeta na arena política e cultural soviética. Seu otimismo quanto ao futuro da URSS e a vitalidade com que expunha a utopia de um "estado-comuna" – sem burocratas e sem elite – acabaram produzindo poemas panfletários, inferiores. A maior admiração política do poeta era o revolucionário Vladimir Lenin, morto em 1924. A biografia mostra de que modo o poeta enalteceu o líder político: "apesar de mostrá-lo humano, apresenta-o livre de todas as fraquezas, numa auréola de santidade". Havendo sempre manifestado interesse em encontrá-lo para conversas e leituras de poemas, escreveu a ode Vladimir Ilich Lenin, sob o impacto da morte do líder, na qual lamentava: "Temo / que o mausoléu / e as funções protocolares (...) / possam esconder / a simplicidade de Lenin". Mas, em que pese a oficialidade desses poemas próximos de peças de propaganda partidária, além de textos de "encomenda social", Mikhailov observa o "dualismo na consciência" do escritor – dualismo que desencadeou sua tragédia. Um sintoma dele é a peça satírica O Percevejo, cujo alvo principal é a estrutura burocrática do stalinismo. Escrito em 1929, um ano antes do suicídio do poeta, O Percevejo é a face melancólica e exausta de quem havia escrito, em 1915, o longo poema Uma Nuvem de Calças, notável em seu otimismo e na sua crença revolucionária.

Escrito sem jargão e sem aparato de notas, o livro de Mikhailov também se apresenta como painel de época. Maiakovski surge como figura central do futurismo. Em 1912, com Bofetada no Gosto Público, o escritor, nascido na Geórgia, divulgou o manifesto de um movimento que tinha, inicialmente, propósitos destrutivos. Ao condenar a tradição lírica dos que faziam odes ao luar e cantavam as paisagens do interior, o poeta levou a extremos a idéia de engajamento. O biógrafo é preciso na sua observação: o futurismo de Vladimir Maiakovski e de seu grupo é um fenômeno russo, marcado por tradições nacionalistas e com tendência à valorização dos sentidos e dos sons das palavras, bem como pelo propósito de se dirigir a milhões de pessoas. O poeta ingressou, assim, numa via experimental e de vanguarda: insistia que a nova arte deveria provocar uma "alteração do olhar", já que as coisas haviam sido transformadas pela vida urbana. Versos e palavras eram abruptamente cortados para valorizar formas novas, como na imagem cubista. Antes mesmo de ser poeta, Vladimir Maiakovski descobrira em si talento para o desenho, que demonstrou nos milhares de cartazes produzidos tanto para a divulgação da poesia como para a ação revolucionária. Todo esse conjunto inovador se somava ainda ao gosto do poeta pela declamação em grandes auditórios e por apresentações anárquicas em que surgia com uma escandalosa camisa amarela. Para muitos detratores, ele era o "valentão da periferia", o "saqueador futurista" com "vozeirão de arrombador".

O leitor brasileiro conta com considerável acesso à obra de Maiakovski, apesar das dificuldades da língua original. Estão a seu alcance Minha Descoberta da América (Martins), relato de uma viagem do poeta monoglota, sempre nervoso no estrangeiro, com passagens marcantes pelo México e pelos Estados Unidos. Ou Poética Como Fazer Versos (Global), que traz a síntese de seu pensamento estético, com o imperdível capítulo "Os operários e os camponeses não vos compreendem". Mais importantes são as coletâneas Poemas (Perspectiva), na criativa tradução de Boris Schnaiderman, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, e Antologia Poética (Leitura), organizada e traduzida por E. Carrera Guerra e hoje somente encontrada em sebos. Esses dois livros capturam um pouco das melhores qualidades literárias de Maiakovski: a busca de comunicação direta com o leitor, sem que para isso haja rebaixamento da linguagem; e a crença no futuro (que ele sabe inapelavelmente urbano). O essencial são os versos, como sabia o próprio Maiakovski e o afirmou em Eu Mesmo: "Eu sou poeta. É o que me faz interssante".


LIVROS

Trecho de Maiakovski: O Poeta Da Revolução,de Aleksandr Mikhailov

    Vladimir Maiakovski - A tragédia

Vladimir Maiakovski, o poeta de 20 anos, com o seu próprio nome intitulou sua primeira grande obra e definiu seu gênero - tragédia. Nela, há uma premonição que gela a alma:

...eu, mancando com a alminha
irei para o meu trono
com os buracos das estrelas pelas abóbadas celestes gastas.
Deitarei,
claro,
em roupas de linho,
no leito macio de estrume verdadeiro,
e silenciosamente,
como os joelhos que beijam os dormentes,
a roda da locomotiva abraçará o meu pescoço.

O século XX finda sua corrida nervosa. A Rússia foi torturada por revoluções e guerras devastadoras, a balbúrdia em torno do nome e da obra do poeta cessaram (não, ainda não cessaram). Ele renegou a cultura do passado e foi renegado pela cultura. Foi colocado em pedestal e retirado do pedestal, admiravam-no, endeusavam-no e glorificavam-no, amaldiçoavam-no e xingavamno, amavam-no e odiavam-no. Maiakovski é o líder da vanguarda poética do século XX, "mobilizado e aclamado pela revolução", e carrega em si as marcas claramente expressas da experiência social iniciada pela Revolução de 1917, com suas idéias românticas e utópicas e tragédias nacionais, com a ênfase excessiva dos vitoriosos, com a desgraça e o sofrimento de milhões... E tudo isso reflete-se na obra de Maiakovski, e também se refletiu fortemente nele, de forma contraditória e intransigente. Na força e na fraqueza, ele surgiu como um homem que se entregava a tudo de corpo e alma. A nenhuma idéia, a nenhum trabalho ele se dava pela metade . Ele veio ao mundo para a vida, para a luta, parece que fisicamente havia sido criado para isso, carregado de energia para a ação: "E sinto - 'eu' para mim é pouco. Alguém quer sair de mim teimosamente." Isso a poesia russa não conhecia. A energia da poesia fluindo até mesmo quando ele, rebelde, procurava a tormenta para sair pelo oceano da vida.

Para Maiakovski, a redenção da criatividade era a vítima. O poeta incita à rebelião e está pronto para marchar na primeira fileira dos rebeldes:

Retirem as mãos vagabundas das calças
peguem a pedra, a faca ou a bomba,
e aquele que não possui mãos -
venha e lute com a testa!

E quase o tempo todo reconhece amargamente:

Penso, mais de uma vez,
se não seria melhor
pôr-me uma bala como ponto final.

Assim é o Maiakovski muito jovem, em suas primeiras obras.

A idéia de reestruturação radical de toda a ordem da vida tomou conta de Maiakovski em escala global. Ouve-se, porém, um tema trágico no poema "Sobre isso" (1923). O jovem sósia de seu personagem principal está parado, apoiado no corrimão da ponte sobre o rio Neva, e pronto a "de impulso arrebentar o coração contra os pilares". E é impossível não atentar para os versos aflitos: "Não vivi até o fim o meu bocado terrestre, o meu bocado de amor", não dá para não ouvir a súplica do poeta, voltada para o cientista do futuro: "Ressuscite, quero viver a minha vida até o fim!"

E há mais um paradoxo: a vontade impaciente de aproximar o futuro, espiar o que vem pela frente. Na terceira parte do poema "Quinta Internacional", não escrita, pretendia mostrar os acontecimentos do final do século XXI.

Ele podia reclamar: "Por todos - a bala, por todos - a faca. E eu quando? E eu?" Eram revelações de fraqueza, as cordas do coração e da alma esticadas até o limite. Mas a imaginação precipitava-se para o futuro. Que futuro? Ninguém sabia. Mas seria melhor. Em O percevejo ele deu um passo à frente de cinqüenta anos, de 1929 a 1979. Não arriscou apresentar sua realidade numa aparência séria: riu da visão estreita do comunismo, com traços tímidos fez seu rascunho sem sorriso. "A máquina do tempo", na peça Os banhos, transporta os passageiros para o século XXI, seus traços surgem suavemente através do personagem da Mulher Fosfórica. Maiakovski apressava o tempo à espera da "comuna nos portões" e foi de encontro à parede do regime autoritário. Tentou até abalá-lo.

Qual a distância mais curta até o futuro que tanto buscava Maiakovski?
Ele não a encontrou. Essa é a tragédia do poeta.

Maiakovski referiu-se às gerações futuras, procurando explicações. O poema "A plenos pulmões" é interpretado como uma mensagem de despedida para os contemporâneos. Não é à toa que alguns deles, ouvindo esses versos na leitura de Maiakovski, pouco antes de sua morte, captaram o sinal da desgraça que se aproximava.

Veio sorrateiramente o tempo de acertar as contas com a vida.

Será que Maiakovski o esperava?

Qual era a paixão que levava para a poesia o jovem Maiakovski, quais as contradições que dilaceravam sua alma, por que ansiava impaciente pelo futuro, pelo "comunismo distante", e por que provoca discussões e discordâncias ainda hoje? Que conteúdo coube nos incompletos 37 anos de sua vida, que preocupações dominavam essa índole grandiosa e ao mesmo tempo frágil? Por que condenou o suicídio de Iessiênin e terminou fazendo o mesmo?

Este livro é sobre isso tudo.


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